Qual o sexo do analista?

Qual o sexo do analista?

Qual o sexo do analista?

A pergunta me provocou risos. Mais tarde, isso me pareceu um vislumbre de resposta, ou pelo menos um ponto de partida para a questão. Seria esse riso uma espécie de Witz, que aponta para aquilo que retorna do inconsciente do analista como um estorvo ou um parasita do seu desejo? Ou uma ironia, evocando o que não tem solução lógica, na medida em que o sexo jamais é integrado a quem quer que seja?

Se tomarmos a questão a partir do gênero do analista, diremos que o sexo do analista não importa. Sabemos que quando escolhemos o analista a partir de um gênero, nada mais fazemos do que espelhar nossas próprias suposições imaginárias. Isso dá sempre razão ao analisante, razões de escolha!

Prefiro tomar a expressão “sexo do analista” como equivalente à pulsão sexual (sem me prender à repartição entre dois regimes diferentes de gozo). Qual o destino da pulsão sexual para um analista e qual a satisfação que ele experimenta em seu ato?

Sabemos que “o analista”, como tal, não existe. Só existem os analistas, tomados um a um, cada qual com o seu sexo e os restos que ele comporta. Cada analista terá que percorrer, em sua própria análise, a hiância entre o seu sexo e o desejo do analista, sabendo que ele sempre terá que se haver com os seus restos sintomáticos.

Não há análise sem um quantum libidinal. O analista é afetado pela matéria de seu ofício, o mais-de-gozar. De nada adianta fazer como Breuer, parceiro de Freud nos primórdios da análise, e dar no pé. Foi assim que, segundo Freud, Breuer deixou cair a chave da transferência, o objeto agalma que o analista encarna para seu analisante, mas com o qual ele não se confunde.

Os analistas pós-freudianos acreditaram poder assegurar pela análise didática e a supervisão a neutralidade sexual do analista. Acreditaram ser possível superar a exigência pulsional pela renúncia à satisfação da pulsão e viram na regra da abstinência, formulada por Freud, o princípio dessa neutralidade. As discussões sobre a contratransferência, que tanta importância tiveram entre os pós-freudianos, só prosperaram enquanto se alimentou essa crença na neutralidade do analista que, no fundo, apenas refletia seu “desejo de ciência”.

O analista paga com o seu ser, dirá Lacan. Ele entra no jogo a partir de sua falta-a-ser. Mas, isso não equivale a renunciar à pulsão. É antes de uma renúncia a renunciar que se trata na aposta analítica[1]. Trata-se de uma aposta a ser verificada ao final da análise, uma vez atingido o ponto a partir do qual o analista dá testemunho do seu saber-fazer com a pulsão sexual para além daquilo que ele pôde decifrar do seu inconsciente. Se o analista paga com o seu ser, é porque o seu corpo, o seu corpo sexuado, está incluído, e não excluído do ato analítico.

O corpo do analista entra em jogo porque, para além do semblante do discurso do analista, sua prática incide sobre um real, o real da não-relação sexual.  Este real só se suporta com o corpo, o corpo que lhe serve de anteparo. Esse corpo não é neutralizável por detrás do divã. Ele pulsa, suspira, se agita, faz falar, suporta o impossível; ele introduz pausas, silêncios, tempera com suas pulsações o tempo de compreender até se precipitar no momento de concluir. Ele é, de toda forma, afetado por seu parceiro-analisante.

Lacan chega mesmo a formular o seguinte paradoxo: “quanto melhor o analista for analisado, mais possível será que ele seja francamente amoroso ou francamente tomado por um estado de aversão ou de repulsa em relação ao seu parceiro, segundo os modos mais elementares da relação dos corpos entre si”[2]. Nada mais estranho ao que Lacan entende ser a presença do analista do que a apatia estóica que consiste em adotar uma atitude de impassibilidade frente ao analisante, a não ser que essa aparente impassibilidade seja somente a contra face de um “desejo mais forte”, como diz Lacan, “mais forte do que os desejos que poderiam estar em causa, a saber, de chegar às vias de fato com seu paciente, de tomá-lo nos braços ou atirá-lo pela janela”[3].

O sexo do analista, e a satisfação que ele implica, depende, portanto, de uma “mutação na economia de seu desejo” a fim de dar corpo ao desejo do analista, uma vez que tanto seu saber quanto o seu ser de objeto não passam de dejetos da experiência analítica. Eu diria que o sexo do analista é o que ele pode emprestar do seu corpo ao desejo do analista como parte de um estilo, de uma invenção e mesmo de uma performance obtidos a partir da sua posição de causa do desejo.

A “regra da abstenção”, formulada por Freud, implica que o analista se mantenha em posição êxtima, neologismo com o qual Lacan busca especificar o estar dentro estando fora, envolvido no campo libidinal do qual resulta o estabelecimento da transferência e, ao mesmo tempo, fora dele. Nesse sentido, podemos dizer que o analista “tira o seu corpo fora”, ou seja, ele se esquiva da reciprocidade imaginária inerente à demanda de amor que, com sua carga libidinal, afeta o seu corpo, para melhor se situar na posição êxtima do analista.

Por um lado, o analista tira o seu corpo fora para se situar no lugar do Outro onde ele paga com palavras, o que lhe permite obter, contingencialmente, a satisfação de um bem-dizer. Mas, por outro lado, o analista também se situa no lugar da causa do desejo, implicando-se aí com o vivo do seu corpo, que não pode ser neutralizado. O que seria o equivalente à satisfação do bem-dizer no campo da palavra no nível do falasser, no qual se fala com o corpo?

O sexo do analista não seria, dessa forma, indiferente ao ato analítico. Ele se faz presente a cada vez que o seu corpo é requisitado como instrumento do desejo do analista. Ao situar o analista no lugar do objeto a, no chamado “discurso do analista”, e não por meio do significante mestre, do saber ou do sintoma, Lacan introduz o analista em um corpo-a-corpo com o analisante. É com o seu corpo que o analista faz anteparo ao objeto a que o afeta.  Nesse lugar esvaziado do significante, o analista paga também com o corpo que sustenta sua presença. O ato analítico, como todo ato, implica nesse ultrapassamento: que o analista se desprenda da consistência imaginária do seu corpo, para se lançar no mais além da causa do desejo; implica, portanto, ‘deixar cair o objeto a de sua posição agalmática’ – que é coisa bem diferente de “tirar o corpo fora”.

A satisfação do analista seria equivalente a “fazer-se de dejeto” e a produzir o seu próprio rechaço. Ela seria, nesse sentido, um paradoxo. Mas, por que esse destino remeteria a uma satisfação e não a um afeto depressivo? Talvez porque o sexo do analista, ao atingir o seu fim, é capaz de prolongar o desejo de Freud, isto é, fazer com que a psicanálise se reproduza e continue a existir.

Frederico Feu de Carvalho
28.10.17

[1] MILLER, J-A. El banquete de los analistas. Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 34.

[2] LACAN, J. O Seminário, livro 8, A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 186.

[3] Idem, p. 187.