XIX Jornada da EBP-MG

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O que quer a mãe, hoje?
Sintomas contemporâneos da maternidade.

Cristina Drummond

A maternidade, ligada ao corpo e à reprodução, pareceu por muito tempo ser uma questão natural e evidente.  Freud ao dar lugar à palavra ousou interrogar o que ser mãe pode significar para uma mulher e deixou claro que a maternidade ultrapassa a biologia da procriação e da gestação.  Ser mãe foi uma das respostas formuladas por Freud à pergunta sobre o que quer uma mulher, no século XXI, essa resposta se converteu numa pergunta. Uma pergunta que também está dirigida aos psicanalistas. Somos convocados a pensar sobre a mudança que ocorreu em nossa contemporaneidade, promovida, sobretudo, pelo discurso da ciência e que subverteu a evidencia da maternidade fazendo dela uma opacidade.

A reprodução na atualidade parece acompanhar uma aspiração a se dispensar os limites do corpo. Desta maneira, a partir de um apagamento do corpo, longe de serem todas iguais, há uma pluralização das mães: mãe biológica, mãe simbólica, mãe solteria, mãe doadora de óvulo, mãe barriga de aluguel, mãe adotiva… Sem dúvida, temos que constatar que o parceiro atual da mãe é a ciência, que lhe possibilita de distintas maneiras o acesso à maternidade, muitas vezes dispensando a passagem pelo encontro com o outro sexo.

Pode-se dispensar a parceria amorosa e inclusive a passagem pelo corpo do Outro e o encontro com o gozo do corpo do Outro. Se para Freud a maternidade era um dos três destinos da feminilidade, essa solução já não responde às questões do feminino no contemporâneo. A maternidade se apresentava como uma consequência da contingencia do amor que se oferecia como um tratamento para o gozo feminino. Ora, a ciência coloca essa solução fora do campo do amor e, portanto, fora da situação em que o falasser feminino tem que ceder algo de seu gozo. As chances de que a criança se situe como metáfora do falo se encontram, dessa maneira, dificultadas. Nada garante que nessa operação de reprodução o amor ou o desejo estejam implicados. Nada garante que a mãe seja mais certíssima como outrora.

Com o declínio da função paterna, a paternidade deixa de ser uma ficção legal para se tornar cada vez mais uma realidade biológica. As mulheres ficam assim mais assujeitadas a seu gozo silencioso e que dispensa um encontro contingente com o falo. Com quem uma mulher faz um filho? Com um homem? Com uma mulher? Com uma tecnologia? Consigo mesma? A quem esse filho estaria endereçado? Essas novas maternidades nos falam de novos modos de laço com o filho.

Esse tema é, sobretudo, um tema clínico, já que é a orientação do real da clínica que tem a possibilidade de nos indicar os efeitos dessas mudanças sobre os falasseres. Já tratamos muito dos sintomas que dispensam o simbólico, que não se inscrevem na palavra. Agora, teremos uma oportunidade de verificar os efeitos feminizantes de nosso mundo a partir de uma aproximação do tema do gozo feminino em sua relação com a maternidade.

É a psicanálise que possibilita um caminho para além do imaginário e dos ideais de maternidade e que permite fazer surgir o real, em questão, na maternidade. É localizando esse real que podemos ir além das fantasias e das ficções sobre a maternidade que se apresenta de formas múltiplas e não deixam de ter uma forte influência da cultura. Podemos ir além do modelo de uma relação natural e fusional entre a mãe e seu filho e revelar junto com Lacan que a criança é um objeto que se articula com a falta materna. Assim, podemos distinguir o desejo de ficar grávida do desejo de tornar-se mãe e ainda do desejo de ter um filho, posições diferentes que decorrem de gozos distintos. Podemos nos perguntar o que pode, no percurso de uma maternidade, satisfazer, angustiar ou desestabilizar o falasser.

Em que lugar o objeto criança se coloca nessas novas relações? Ao se tornar mãe, deixa-se de ser mulher ou ainda tem-se que reinventar a relação com o feminino tal como indica um blog atual: “vida pós-maternidade?” Os ideais, a tradição e as constituições que organizaram as famílias e a maternidade parecem não nos servirem mais como enquadramento. As famílias se inscrevem muito mais como existência do que como modelos. Esse nível da existência que é da ordem do particular traz seguramente problemas para ser pensado como universal a ser legislado. Afinal, o real oferece uma chance à psicanálise.

Assim, nossas jornadas tratam de um tema que mobiliza os debates contemporâneos, mais além da interlocução com outros discursos, vamos buscar situar a maternidade como um real mais além do sentido. É sobre esse real que vamos nos debruçar, buscando abordá-lo pelo viés dos problemas e impasses que os falasseres nos colocam no cotidiano de nossa clínica. Afinal, os psicanalistas devem estar consonantes com a subjetividade de sua época para estarem a altura de seu ato.[1]

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[1] LACAN, J. Fuction et champ de la parole et du langage en psychanalyse, Écrits, Paris : Seuil, p. 321.