Resenha Cinema & Psicanálise: Transamérica

Resenha Cinema & Psicanálise: Transamérica

Somos todos trans.

Miguel Antunes

Dando continuidade à série “Cinema & Psicanálise”, uma parceria da Escola Brasileira de Psicanálise, seção Minas Gerais, com a Fundação Clóvis Salgado, e em conexão com a XXI Jornada “O inconsciente e a diferença sexual: o que há de novo?”, no dia 02 de junho houve a exibição do filme “Transamérica”, (2005) dirigido por Duncan Tucker e contou com comentários do psicanalista Henri Kaufmanner.

A sala Humberto Mauro estava lotada e com um público bem diversificado, o que parece ser a marca desta atividade, o que torna evidente a importância do tema abordado, assim como a aproximação da psicanálise com a cidade.

Transamérica nos deixa capturado desde o início. Sua cena de abertura é algo instigante: a protagonista, Bree, fazendo exercícios vocais tenta encontrar qual seu melhor tom de voz. Oscilando entre agudo e grave até se mostrar satisfeita com seu ideal, a voz de mulher.

O filme transcorre mostrando o cotidiano de Bree. Ela trabalha com telemarketing e, entre uma ligação e outra, seu telefone toca. Parece ser de um centro de detenção juvenil, mas ela diz que “Stanley” não mora mais neste endereço. Ela desliga o telefone e permanece em silêncio e tomada por uma angústia. Evidenciando que Bree jamais se identificou com uma posição masculina, mesmo tendo nascido homem e ter o nome Stanley em sua certidão

Na sessão seguinte de terapia, Bree dá uma dimensão menor para a ligação recebida, mas sua terapeuta a interroga, pois sempre havia negado ter tido relações com mulher. Ao que Bree responde ter sido algo “sem importância, pois foi muito lésbico”. Sua terapeuta não permite que tal telefonema seja em vão. Retorna a importância dela ir de encontro ao filho, enfatizando que essa parte do corpo não lhe será arrancada e só assinaria a autorização da cirurgia de retirada do pênis após este encontro.

Após esta intervenção, vai até seu filho Toby. Ao encontra-lo, ela não diz ser seu pai, mas sim uma missionária da igreja “Pai em Potencial”. E a partir daí o filme mostra os maus e bons momentos entre eles. Inicialmente Bree demonstra um nojo acerca do modo de vida de Toby. Ele mora em um minúsculo apartamento imundo e bagunçado. Durante viagem dos dois, a relação vai mudando e começa a ser afetuosa. Até o momento em que Toby vê que Bree tem um pênis. Toby fica em silencio e em seguida, dão carona para um hippie que os assaltam. Levando o carro e os objetos favoritos de cada um. Dele, seu livro sobre cachorros, dela, sua maquiagem e hormônios.

Após o assalto, chegam à casa dos pais de Bree, onde ele só é reconhecido por Stanley. Deparamos com uma “família tradicional” e moralista que não permite à Stanley ter uma relação mais amistosa com seu corpo. Após uma briga entre Bree e Toby, Toby sai de casa. Sua irmã alcóolatra e sua mãe, a abordam pela primeira vez como Bree e perguntam “o que você quer fazer?”, possibilitando que Bree seja acolhida nesta família.

Após o sumiço de Toby o filme vai direto para a cirurgia de Bree que recebe a visita da terapeuta. Nesta visita, para além das dores no corpo, o que salta aos olhos é a dimensão, para Bree, da perda de seu filho, agora não mais como algo nojento e desprezível como era o seu pênis, mas tomado na esfera do amor.

O filme termina na visita de Toby à Bree, mas não mais na dimensão de um adolescente e rebelde, mas de filho.

Durante os comentários de Henri e a participação dos presentes, vale destacar que a posição de Bree como mãe ou pai ficou em segundo plano. O que interessa à psicanálise é o fato do sexual nunca se restringir pela superficialidade das performances, pois ninguém é o que parece ser, e nisso os personagens de Transamérica demonstram de modo espetacular.

O “trans” de Transmérica nos evidencia que toda tentativa de classificação, de controlar a exigência de satisfação dos corpos, é sempre fracassada. Pois, na época em que essas se restringiam apenas a homem e mulher, acontecia de tudo por baixo dessas nomeações, ao expandir as classificações, uma imensidade de coisas continuam passando por baixo disso.

O que filme nos mostra que o sexual é da ordem do trans, de certa forma, somos todos trans. E cada um vai se fixar em algum ponto disso. A psicanálise nos mostra que a experiência do gozo no corpo é enigmática, inapreensível. Mas em algum momento o sujeito se fixa nessa transexualidade, e então, vai construindo o que lhe é próprio, singular, sua maneira de satisfazer-se. É esta a ética da psicanálise, acompanhar a maneira pela qual cada um vai fazer seu transporte, sua rota.