Resenha da Conferência de Clotilde Leguil

Resenha da Conferência de Clotilde Leguil

RESENHA DA CONFERÊNCIA DE CLOTILDE LEGUIL[1]

 Laura Rubião

 Em sua conferência “Do desejo de ser à vergonha de gozar”[2], Clotilde Leguil nos apresentou, de forma elegante e clara, os pontos de encontro e desencontro entre a Psicanálise lacaniana e a Ontologia fenomenológica de Sartre, enfatizando o quanto esta última teria servido de esteio à primeira em sua decisão ética de fundar o retorno à letra freudiana e “liberar a psicanálise da prisão do ego”.

Apesar de não poupar críticas sistemáticas ao existencialismo sartreano, que desconsidera o inconsciente, Lacan não teria deixado de fazer um uso próprio de alguns conceitos da ontologia fenomenológica do início do século XX. Embora tenham adquirido uma conotação própria, os conceitos de “falta-a-ser”, desejo de ser, des-ser (désêtre) testemunham o que pôde ser recuperado do legado de Sartre.

A fim de sistematizar os pontos de conexão e desconexão entre o pensamento de Lacan e o do filósofo existencialista, a psicanalista isolou quatro momentos que corresponderiam a quatro usos distintos da ontologia fenomenológica no percurso de Lacan.

O primeiro momento se anuncia já na década de 40, sobretudo a partir do texto “Formulações sobre a causalidade psíquica” (1946), no qual Lacan se insurge contra o organo-dinamismo de Henri Ey, fazendo entrar a ontologia em cena para sustentar seu ponto de vista em relação à causalidade psíquica da loucura. Para Lacan a loucura não estaria ligada a um déficit ou a uma alteração das funções superiores do psiquismo,  supostamente responsáveis por uma desadaptação à realidade, mas reportar-se-ia a uma causalidade que coloca em relevo “uma crença do sujeito em seu ser”.

Tal como Sartre, defensor de  uma determinação espontânea de nosso ser que não se pode explicar para além dela mesma, Lacan teria colocado em destaque, no que diz respeito à causalidade da loucura, a falta de uma causalidade externa  ao sujeito responsável frente ao que chamou de “ insondável decisão do ser” [3],

O segundo momento estaria situado a partir dos textos e seminários da década de 50, era de ouro do estruturalismo. Lacan teria recorrido aí a um novo uso da ontologia, posicionando-se radicalmente contra o espírito da psicologia do ego propagado por autores pós-freudianos.  O que se depreende nesse novo passo é uma crítica contundente a todo ideal de autonomia do ego que refletiria, por sua vez, um ideal de adaptação, pela via da maturação dos instintos. O desejo do ser falante expressa a relação do ser à falta que não é falta disto ou daquilo, mas uma falha que estrutura e funda o próprio ser.  Lacan teria novamente se inspirado em Sartre, defende Leguil, para fazer valer a essência de seu retorno a Freud que vê no sujeito falante as ressonâncias de um desejo excêntrico a toda satisfação.

O terceiro momento compreende a produção lacaniana dos anos 1959 -63, sobretudo as teses desenvolvidas no seminário 10 – A angústia. Em que pese o início de um declínio na relação lacaniana às proposições ontológicas,  na medida em que  começa a colocar em destaque o registro do real, ainda assim pode-se extrair daí referências importantes ao existencialismo sartreano. Se a angústia é para Sartre o afeto privilegiado “que faz aceder ao ser mesmo do Dasein, ao nada do ser do sujeito”, para Lacan, ela se torna um modo de acesso ao real, testemunha do encontro do sujeito com a “falta da falta”, ou com um objeto em excesso que obstrui a via do desejo.

A partir daí, observa-nos a psicanalista, apoiando-se em Miller, a ontologia torna-se insuficiente para abordar a vertente pulsional do sintoma que se exprime na análise como uma repetição residual que não mais nos remeteria ao universo da falta-a ser e do recalcamento.

O quarto e último momento refere-se às teses encontradas no seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1963-64). Aqui encontramos uma ontologia destinada a ser ultrapassada pela ética inconsciente “como descontinuidade que surge no âmago do discurso, como hiância que obedece a uma estrutura temporal”[4].  O inconsciente se apresenta como um ‘não realizado’ que faz apelo à realização,  como um acontecimento que surge instantânea e pontualmente no discurso e que evoca o ato e a presença do analista. Ainda que para Sartre não se possa apreender a dimensão do  Ser (com maiúscula) mas, tão somente, fenômenos correlatos de um sujeito marcado pela falta a ser, este nunca articulou sua ontologia a uma Ética, tal como o fez Lacan.

Na passagem do sujeito marcado pela falta-a-ser ao falasser observa-se uma progressiva ultrapassagem das questões ontológicas, na medida em que Lacan se depara com os restos da operação analítica, com “algo que não é nem ser, nem não ser, mas energeia, atividade pulsional, gozo do ser” [5]

Desse modo, conclui Leguil, se para Sartre o inferno são os outros, para Lacan o inferno é nosso gozo, com o qual temos que nos a ver em análise.


[1] Clotilde Leguil é psicanalista, membro da AMP/ECF, mestre de conferências na Universidade de Paris 8 e autora do livro “Sartre avec Lacan” , Paris: Navarin, 2012.

[2] Esta conferência foi ministrada na sede da EBP-MG, no dia 13/05/13, integrando as atividades da Biblioteca e teve como mediadores Antônio Teixeira e Lucíola Macêdo. O essencial do que nos foi transmitido por Clotilde Leguil, pode ser lido em sua intervenção no curso de Jacques Alain Miller “O ser e o um”, na lição do dia 15/06/11.

[3] Lacan, J. Formulações sobre a causalidade psíquica (1946-1988). In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, p.179.

[4] Miller, J. O ser e o um. Lição do dia 15/06/11, p.15

[5] Miller, J. O ser e o um. Lição do dia 15/06/11, p.18.