Resenha da Disciplina do Comentário do Seminário Silet – O discurso capitalista, a mais valia e o mais de gozo.

O discurso capitalista, a mais valia e o mais de gozo.

Sérgio de Campos

Ministrado em 01 de novembro de 2016.

Como considerar o valor de um objeto no plano da felicidade? Seria possível fazer esse cálculo? Quais seriam os fatores em questão? A economia, pela sua semelhança com o inconsciente, foi incluída na psicanálise tanto por Freud como por Lacan. Mais precisamente, Lacan em De um Outro ao outro, no qual aproxima os conceitos de mais valia e mais de gozo, assinala que o conceito marxista encarna o vivo do desconhecido (LACAN, 1968-69/2006, p. 18) e acrescento que esse elemento, não raro, está em jogo nos planos da felicidade.

Em meados do século XIX, a Europa ainda se caracterizava pela instabilidade política que fora inaugurada com a revolução francesa. O espírito da insurreição se espalhou por todo continente e houve diversas tentativas de substituir a monarquia e a aristocracia pela república democrática. Alguns poucos filósofos, entre eles, Adam Smith se voltaram para o estudo da economia, considerando-a como sendo ela, a causa e a consequência de todos os problemas sociais. Augusto Compte sugeriu que seria possível fazer um estudo científico da sociedade e acreditava que a ciência poderia ser usada para construir um mundo melhor. Karl Marx concordava que tinha passado da hora de fazer uma abordagem metódica e objetiva, de modo que compreendeu a economia para além da sociologia, ao buscar explicar a sociedade moderna em termos históricos, econômicos e de ação política, usando a observação para analisar as causas da desigualdade social.

Marx argumenta que a história das sociedades se dá através de luta de classes, onde os modos de produção e a evolução da técnica são os principais fatores para gerar a mudança política e social. Ele inverte a dialética hegeliana ao negar a possibilidade que as ideias sejam a realidade, visto que elas são o produto do processo evolutivo da matéria, que configura a realidade, vista como um universo em contínuas mutações, evoluindo por movimentos bruscos, sempre determinados pela superação de uma contradição. Marx propõe um conjunto de teorias e interpretações socioeconômicas e políticas, entre elas, aquela em que a burguesia teria contribuído para a derrocada do regime feudal, configurados como antigos senhores, em razão do comércio e a produção de manufaturados pelos artesãos, considerados como os antigos escravos.

Max Weber concorda com Marx quando assinala que existem razões econômicas por trás do conflito de classes. Contudo, critica Marx quanto a uma simples divisão de uma sociedade, já que acreditava que havia causas culturais e religiosas, assim como econômicas para o crescimento do capitalismo e que elas refletiam nas classes com base no prestigio e no poder, além do status econômico (ATKINSON, 2015, p. 31).

Marx, ressalta no “Manifesto comunista” que à medida que a burguesia e o capital crescem, desenvolve-se também o proletariado, que como classe operária moderna só pode subsistir sob a condição de encontrar trabalho. Contudo, apenas o encontra, quando o seu trabalho é capaz de aumentar o capital do capitalista. Marx considera que o capitalismo se estrutura a partir de como os homens se organizam para produzir socialmente seus bens. As relações de produção na sociedade industrial moderna opõem os homens que detém os meios de produção – os antigos senhores – e aqueles desprovidos de meios de produção e que têm apenas a força de trabalho – que eram os antigos escravos. Com a finalidade de subsistir o proletário passa a vender sua força de trabalho ao capitalista. Hoje, os proletários não são apenas aqueles que trabalham nas fábricas, como na época da revolução industrial. No contemporâneo, o proletário são todos os trabalhadores assalariados ou não.

A relevância de Marx na historia da economia consiste no fato de que ele isolou a mais-valia, como algo que até então, não era percebido. De acordo com Pierre Bourdieu, a função da sociologia, com a de todas as ciências, é revelar o que está oculto. Marx considerava que o proletário representava o antigo escravo e que ele detinha um saber fazer nos seus meios de produção. O senhor comprou toda sua produção e quando o escravo não tinha mais nada para vender, vendeu sua força de trabalho, seu saber-fazer. Entretanto, o saber-fazer do escravo no campo do senhor se tornou teórico não constituindo um saber na prática. Hoje, poderíamos dizer que o escravo não transmitiu sua tecnologia para o senhor e o fazer do saber se perdeu, restando apenas um saber teórico. Marx revelou o que estava até então oculto na economia vigente. O escravo despossuído de seu saber fazer, ao vender sua força de trabalho excedente a transmutou em mais-valia no campo do senhor.

Em suma, a obra de Marx consiste numa crítica e numa reflexão complexa sobre a economia sustentada por três pilares: a ciência econômica inglesa inspirada em David Ricardo e Adam Smith, a filosofia alemã pautada em Friedrich Hegel, Fauerbach e Engels, e a teoria do socialismo francês aludida a Proudhon e Saint-Simon. Marx no vol. I do Kapital expõe uma crítica a economia política e os principais fundamentos do capitalismo: mercado, valor de troca, propriedade, salário, capital e trabalho. Marx ressalta que o capital não é um objeto, mas uma relação social e é, justamente, essa relação que faz desse suposto objeto uma relação de exploração. (ANSART, 1999, p. 323).

De acordo com Marx, o valor econômico é o valor que tem ou que se supõe ter um objeto. Consegue-se verificar dois tipos de valores no mercado, o valor de uso e o valor de troca. Se por um lado, o valor de uso é o valor natural, fruto do trabalho humano, concerne à esfera da necessidade e seria o quanto valeria realmente o objeto; por outro, o valor de troca toma a forma de um preço condicionado ao valor do referido objeto no mercado, visto que o valor de troca não tem origem na atividade humana e no trabalho que consagra a produção de bens. O valor de troca é cristalizado por um esforço dispensado pela força de trabalho que o mercado se apropria (MARX, 1872/1974).

Portanto, a mais-valia, como não tem origem na produção do trabalho, já que ela só pode ser resultada da extorsão de uma das partes dos valores produzidos ao curso do processo de trabalho. Assim, a expressar a mais valia, Marx exprime em palavras a intuição de Proudhon na qual assinalava como “a propriedade é um roubo”. A relação capital e trabalho é fundamental para designar a relação social de exploração na qual se opõem os proprietários dos meios de produção, os capitalistas, e os trabalhadores com sua forca de trabalho.

Marx vai distinguir a mais valia absoluta e a mais valia relativa. A primeira é obtida ao longo do curso da jornada de trabalho, de modo que ela seria o equivalente a diferença entre a equação do menor salário pago ao trabalhador e o maior tempo de trabalho. Esse tipo de mais-valia encontra restrições nos limites biológicos por parte do trabalhador. O segundo tipo, a mais valia relativa, é mais complexa, visto que ela utiliza a força de trabalho na produção do objeto, contudo, colocando o seu valor de troca do objeto abaixo do valor de mercado. As grandes empresas ocidentais ao utilizar mão de obra barata oriental conjugam a mais valia absoluta e a relativa. No capitalismo, o trabalhador é livre para vender sua força de trabalho, propõe a concorrência, o dinamismo e a melhoria dos meios de produção; em contrapartida, ocasiona um achatamento da classe média e o proletário se vê restrito em sua subsistência (ANSART, 1999, p. 324).

A burguesia e o proletariado se constituíram em antinomias de classes, sendo que a última, ao mesmo tempo alienada e, por isso mesmo, potencialmente revolucionária. Marx propõe uma história movida pela luta de classes, cabendo ao proletariado fazer a revolução, última etapa antes da implantação do comunismo como fim. Hoje, a implantação do comunismo fracassou, embora ainda ocorra a divisão de classes entre as elites e os trabalhadores.

Segundo Marx, “…os homens estabelecem relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Entretanto, não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência. ” (MARX, 1872/1974).

A concepção materialista da História, proposta por Marx, confere aos fatores econômicos (técnicas, relações de trabalho e produção) um valor preponderante no desenrolar dos acontecimentos. A consciência do homem não fundamenta essas relações, mas, na realidade são efeitos delas. Assim como o direito, a moral, a política, a religião e ideologia, que constituem a sociedade como uma superestrutura, são reflexos da estrutura econômica. Marx ressalta que os elementos que constituem a sociedade não têm vida própria diante do modo pelo qual os homens produzem e reproduzem a existência. (MARX, 1872/1974).

Por conseguinte, existe uma inclinação do capital de acumular em virtude dos cálculos de juros sobre juros, o que resulta a exploração da mais-valia. O trabalho realizado pelo proletariado é sempre muito maior em relação à sua remuneração, sendo contínua sua exploração, de modo que o que é extraído do trabalhador como exploração de sua força do trabalho é a mais valia. É digno de nota observar que se antes, o capitalista se apropriou da força de trabalho do proletário como mais-valia, na atualidade, no que concerne à informatização dos meios de produção, o trabalhador passa a ser dispensável, visto que as máquinas se saem melhor sozinhas (LACAN, 1992, p. 153). O resultado desse processo no qual o proletariado é descartado do processo de produção, é o desemprego que é fruto do casamento do discurso da ciência com o capitalismo.

Recorremos à Marx não para aprofundarmos no estudo do materialismo histórico, mas, para nos apropriamos da noção da mais valia que se torna o cerne do discurso capitalista. Portanto, ao transportar o raciocínio de Marx para a psicanálise, diremos que existem apenas os valores de uso e de troca se houver extração do objeto a mediante à separação do sujeito com o Outro. O valor de uso é aquele que o objeto tem para o sujeito, de acordo com o grau de investimento libidinal de cada um. Objetos semelhantes podem ter valores de uso diferenciados para distintos sujeitos, visto que podem extrair satisfações dispares em circunstâncias e em momentos desiguais e, por consequências, diversas felicidades possíveis. O valor de uso e o valor de troca são interdependentes, vicariantes e intercambiáveis, visto que nada teria valor de troca se não houvesse algum valor de uso, ao mesmo tempo em que nada que tenha valor de uso numa economia, mesmo que seja psíquica, deixa de ter algum valor de troca.

Cotejaremos o conceito de valor de uso com o de valor gozo, uma vez que o gozo tem um valor para o falasser na medida em que ele o coloca em uso e não declina de fazê-lo, mesmo que esse uso o coloque em risco, não obstante as recomendações médicas, psicológicas ou familiares, como no caso de alguns sintomas que o levam ao pior. Nesse caso, pode-se dizer que o sujeito é feliz, mesmo quando declara sua infelicidade (MILLER, 2006. p. 14). O sujeito é feliz visto que a pulsão se satisfaz seja para o bem ou para o mal. Assim, podemos indagar qual é o valor de gozo que o sujeito tem para com seu objeto ao usá-lo? E mais: se esse falasser fosse a um analista, quanto de seu valor de gozo, ele estaria disposto a declinar e a transformar em valor de troca, mediante pagamento monetário para alcançar os efeitos de discursos em um processo analítico?

Lacan ressalta que é necessário supor que, no campo do Outro, exista um mercado que totaliza os méritos, os valores e, ainda, que assegura a organização das escolhas, das preferências e que implica para o sujeito como uma estrutura ordinária (LACAN, 1968-69/2006. p. 17). Nesse tipo de organização do Outro, que denominei de mercado dos sintomas e da fantasia, o objeto ganha um valor de semblante. Assim, Miller ressalta que a troca do gozo pelo saber, saber como preço da renúncia ao gozo, faz com que ele, o gozo, se torne uma mercadoria (MILLER, 2007, p. 14).

Para compreender a mais-valia e o mais de gozo, ressaltamos que Marx assinala que a diferença entre o valor de mercado e o valor natural é consequência da lei da oferta e da demanda. O resultado dessa diferença, Marx denominou de mais valia. Sob o ângulo do mais de gozo, pode-se afirmar que há uma diferença entre o valor natural e permanente do objeto e o valor de libido investido no objeto, de forma que o valor de gozo é conferido pelo sujeito em sua economia, diante dos dois tipos de demanda (demanda ao e do Outro).

Lacan assinala que Marx denuncia o processo de espoliação, pois o escravo, atual proletário, não se dá conta que é no saber que ele transmite para o senhor que está o seu verdadeiro segredo. Como o capitalista considera o trabalhador como sendo apenas uma unidade de valor, na medida em que o último entrega esse valor, como mais de gozar ao primeiro.

No que concerne ao discurso capitalista, Lacan assinala que Marx detectou que o discurso capitalista forclui a mais-valia e que essa subtração e uma forma de gozo particular que Marx isolou no mundo engendrado pelo capital. (MILLER, 2016, p. 116). A mais-valia é um significante que forcluído retornará no real como desemprego. A mais-valia é uma quantidade extraída do trabalho do proletário pelo empresário que jamais se ele recupera. Os sindicatos tentaram garantir direitos do trabalhador para compensar as perdas econômicas, mas o mercado gradativamente subtrai seus direitos. Assim, a mais-valia é uma quantidade impossível de quantificar e como objeto perdido, anima como causa toda a cadeia de produção e que nenhuma das garantias trabalhistas fará o trabalhador recuperar. A economia expressa sua causa de desejo mediante uma produção extensiva e, portanto, insaciável na sua falta de gozar. Então, o mercado empresarial não almeja apenas a mais valia, mas suprimir o resto que poderia surgir do lado do proletário como direitos do trabalhador.

Muito antes de Lacan se ocupar da mais-valia e do mais de gozo, ele analisou a figura do rico. Lacan ressalta que o rico compra, ele compra muito, ele compra tudo. Nelson Rodrigues tem uma frase antológica: o dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. Mas, segundo Lacan, o rico compra tudo, mas, ele não paga. Primeiro porque ele faz a mais-valia abater no pagamento, regularmente. Ademais, há algo que o capitalismo nunca paga é o saber que ele extrai do proletário (LACAN, 1960/1992, p. 77).

Mas, por que alguém deseja vender para o rico se ele não paga? As pessoas se deixam comprar pelo rico porque ele oferece em troca uma parte de sua essência de rico. Ao negociar com um rico, ou com uma nação desenvolvida, vocês acreditam que simplesmente vão participar do meio de alguém de posse, da alta sociedade ou mesmo estar no mesmo nível de uma nação rica, mas isso é um puro engodo. Nesse negócio, o trabalhador que vende para o rico se vê expropriado do saber, já que o rico adquire esse saber de quebra, abaixo do mercado (LACAN, 1960/1992, p. 78). Essa passagem pode ser exemplificada no fato de que o Japão ao comprar o minério de ferro brasileiro em toneladas a baixo preço, consegue por sofisticado processo, extrair o ouro nele contido. Outro exemplo que lhes ofereço é o caso de uma costureira pobre, porém, talentosa que costurava para uma mulher rica, mas de quem jamais recebia. Mas, por que essa pobre mulher continua a costurar para a dama da alta sociedade. Para receber sua essência, para sonhar que através de seus vestidos, ela circulará nas altas rodas.

Lacan recorre ao Banquete de Platão para comentar no seu seminário a transferência sobre a psicologia do rico. Diferente do discurso de Fedro, que é um discurso mitômano, o de Pausânias é um discurso sociológico, visto que ele vai abordar as posições sociais do mundo grego. Entretanto, aqui vai nos interessar o que ele vai dizer sobre o rico. Pausânias, como todos convidados do Banquete de Agatão, vai abordar esse tema a partir da posição do amado e do amante. É no plano de uma aquisição, de um proveito, de um adquirir, de uma posse, que vai produzir o encontro desse par que vai se configurar como o amor superior, como o amor platônico. Todo o discurso se elabora em função de uma cotação de valores. Trata-se apenas de aplicar os investimentos psíquicos, que Freud chamava de catexias. (LACAN, 1960/1992, p. 62).

É necessário se precaver para que os investimentos não sejam desperdiçados. O rico existia antes do burguês. Mesmo numa economia agrícola, primitiva, o rico já existia desde os primórdios e dava as cartas. Os primeiros deveres do rico nas sociedades primitivas eram ostentar sua riqueza e dar festas periódicas e realizar gastos de luxo. A medida em que as sociedades evoluem, esse dever passa a ser secundário, discreto ou clandestino. A psicologia do rico parece se basear que na sua relação para com o Outro é do valor que se trata. Afinal, trata-se de uma competição explicita de comparação aberta em escala, em se tratando da posse dos bens (LACAN, 1960/1992, p. 63).

Pode-se dizer que essa competição aberta na alta sociedade de hoje, até pouco tempo antes da crise, se expressa em valores gastos num casamento. Afinal, trata-se da posse do amado, pois ele tem um bom fundo – krestor – e que uma vida não será bastante para valorizar. O ideal de Pausânias em matéria de amor é o capital, é a capitalização protegida, o depósito em cofre daquilo que lhe pertence por direito como sendo o que ele soube discernir e que é capaz de valorizar. O rico tem o capital como coração.

Lacan faz alusão a cliente calvinista extremamente rico, com os cofres repletos de diamantes, pois segundo ele nunca se sabe o que pode acontecer. Lacan faz uma menção à religião calvinista – embora não seja privilegio dela constituir ricos – em virtude de que em sua teologia Deus escolhe acumular de bens, aqueles que Ele ama. O calvinista tinha o hábito de datar suas aquisições a título de investimento futuro, ele escrevia: adquirido em tal data.

Certo dia, conta Lacan, que seu cliente embora dirigisse com prudência, atropelou uma linda jovem pobre, filha de um porteiro. Ela recebeu com frieza suas desculpas, com mais ainda frieza sua proposta de indenização e com mais frieza glacial suas propostas para jantarem. Em suma, para ele quanto mais elevava a dificuldade de acesso ao objeto milagrosamente encontrado, mais crescia o valor em seu espírito. Ele dizia a si mesmo que tinha encontrado um verdadeiro valor, fato esse que o levou ao casamento (LACAN, 1960/1992, p. 64-65).

Durante algum tempo, toda noite o calvinista cobria de uma joia diferente sua linda mulher, para serem recolocadas no dia seguinte novamente dentro do cofre, até que um dia ela fugiu com um engenheiro que ganhava 50 mil francos por mês. Se alguém tendo em vista o dinheiro se casa com um amante acreditando ser ele rico e depois se percebe enganado, não obtendo qualquer vantagem pecuniária, ele se considerado oportunista e de baixa moral. Porém, se tivesse sido ao contrário, se o rico tivesse sido enganado pelo amante pobre que possui virtude, diríamos que é belo ser enganado. (LACAN, 1960/1992, p. 65).

Lacan ao elaborar o discurso capitalista como uma inversão no lado do agente no discurso do mestre propõe o sujeito no lugar do agente, mas um sujeito que porta um semblante; semblante esse que endereça ao Outro, o mercado, como lugar do gozo que, por conseguinte, produz um objeto-mercadoria como mais de gozar, que por fim, é endereçado ao sujeito, que como dividido se torna insaciável em sua ganância. O capitalista, como agente, pode controlar a produção na condição de objetos-mercadorias, mas não consegue controlar o mercado, que se encontra no lugar do Outro. O objeto-mercadoria entra em jogo como causa de voracidade do sujeito, capitalista, empresário, de modo que a inclinação desse objeto visa em vão suturar sua divisão.

Lacan nomeia esses pequenos objetos a produzidos pelo discurso capitalista como latusas que são encontrados “no pavimento de todas as esquinas, atrás de todas as vitrines, na proliferação desses objetos feitos para causar o desejo” e para fazer gozar (LACAN, 1969-70, p. 152). As latusas, como objetos mais de gozar é o produto da operação discursiva que se conta, se contabiliza, se totaliza, se designa no que chamamos de acumulação de capital. Com efeito, as latusas podem servir de índices e se tornar símbolo de riqueza e de status, já que existe em torno delas uma constante renovação. Lacan ressaltou que o capitalismo ironicamente encontrou na renovação dos objetos ofertados pelo mercado, a revolução permanente de León Trosky. Trosky advertia que se não houvesse uma revolução permanente, o comunismo pereceria.

A mais-valia se junta ao capital, sem problemas, pois é homogênea em termos de valores (LACAN, 1970, p. 169). A partir da segunda metade do século XX, no pós-guerra, surge um novo capitalismo em consequência das formações de trustes, dos carteis, dos holdings transnacionais, da intervenção do Estado com a finalidade de protecionismo, da expansão imperialista e da participação do crédito bancário com juros baixos e do monopólio das grandes corporações.

Lacan denota que a medida em que emerge um futuro promissor para a ampliação dos mercados comuns e o monopólio da verdade, como S1, conferido pela ciência e pela técnica, encontraríamos “o seu equilíbrio numa aplicação cada vez mais dura dos processos de segregação”, de sorte que para que exista um mercado comum se faz necessário métodos segregatórios (Lacan, 1967, p. 263). O S1 sob a barra, abaixo à esquerda, denota que a verdade do discurso capitalista, diferente do que poderíamos supor, ele visa à homogenia, levando as diferenças ao destino da segregação. Portanto, o significante mestre no lugar da verdade, proporciona clubes hegemônicos de consumo que excluem e segregam. Assim, pode-se dizer que todos os quatro discursos propostos por Lacan promovem o laço social, com exceção do discurso capitalista, no que concerne um real impossível do capitalista em relação ao Outro do mercado. O capitalista não consegue fazer funcionar o mercado que é um enigma para os economistas. Em contrapartida, ainda no matema do discurso capitalista, a impotência se localiza no andar inferior no que concerne a produção em relação à verdade. Portanto, o que o discurso produz é impotente para revelar a verdade. Assim, o impossível e a impotência são dois pontos de tensão, como o ato e o sintoma, não havendo como superar estas polaridades, uma não existe sem a outra. Resta a psicanálise sustentar esta tensão pela palavra e pelo discurso no âmbito do debate contemporâneo.

Se Marx procurava qual é o valor natural de uma mercadoria, era para saber qual seria o valor da força de trabalho para produzi-la. Marx demonstra que, quando há um equilíbrio entre a oferta e a procura, o valor de mercado coincide com o valor natural. Portanto, se num final de análise houver uma anulação entre a oferta e a demanda, devido ao declínio do sujeito suposto saber, o sintoma se reduzirá ao seu osso, desvelando-se em sinthoma. Aliás, o nó de Borromeu sustenta apenas o osso de uma análise, ou seja, aquilo que Lacan denominou de osbjet. (LACAN, 1975-1976/ 2005. p. 145).

Portanto, Marx considera que o preço do valor da mais-valia é uma expressão exata do grau de exploração do capital ou do capitalista da força de trabalho do trabalhador. Assim, podemos conjecturar se o mais de gozo não é exatamente a tensão entre a força empregada pelo sintoma, como valor de mercado e o osso sinthomático, como valor natural. Se por um lado, a mais-valia faz o capitalista feliz; por outro, a redução da tensão entre o sintoma e o sinthoma abre perspectivas de bon-heur (LACAN, 2003. p. 525) para o falasser. Esse ponto pode ser recuperado pela alusão de Freud à famosa passagem na qual Michelangelo afirmava que a escultura está dentro do bloco de mármore e que seria preciso libertá-la! Portanto, esvaziado o sentido, liberta-se o sinthoma.

Com efeito, Lacan ressalta que o mais de gozo encontrará sua especificidade, cuja função última é a renúncia ao gozo, sob efeito de discurso (LACAN, 1968-69, p. 19). Assim, se por um lado, o inconsciente é o capitalista; por outro, o analisante é o trabalhador. Então, a mais-valia, como perda, por parte do trabalhador equivale à renuncia de gozo pelo mais de gozo por parte do analisante. É paradoxal, mas o analisante lucra com sua perda de gozo, isto é, através de seu mais de gozo, argumenta Lacan. É apenas dessa maneira que o objeto a encontra o seu lugar. Após o processo analítico, desbastado, circunscrito e limitado de seu valor de troca pelos significantes, restará ao ossobjeto apenas o seu valor de uso natural como um mais de gozo específico.

Lacan coloca a felicidade como possível resultado de um processo de análise e assinala que existe o feliz acaso [bon heur]. Aliás, “só existe isso: a felicidade do acaso!” (LACAN, 2003. p. 553), completa. Ainda em Televisão, ele irá retomar o tema da felicidade ao dizer que o sujeito é feliz, já que ele deve tudo ao acaso e à fortuna, e que o acaso é aquilo que o sustenta.

Com efeito, há uma impossibilidade de que o gozo venha a se declinar de todo. Contudo, se o sujeito se depara com o impossível no fim de sua análise, o valor de uso do objeto irá proporcionar um novo valor de gozo, agora não mais para um sujeito da falta, mas para um falasser do gozo. O gozo se modificará com a perda de sentido, adquirindo um novo valor de uso na medida em que o falasser, através de seu corpo, usufruirá de um Gozo sob nova perspectiva. É nesse novo valor de uso para o Gozo – que Lacan denominou de sinthoma – que o falasser encontrará a felicidade. Aliás, pode-se dizer com Marx que é justamente no sinthoma que se encarna o vivo do desconhecido e, nele, o falasser terá a sua [bon heur] (MILLER, 2006. p. 15).

Para Marx, é preciso definir como mercado qualquer objeto que seja fruto do trabalho humano, portanto, esse postulado se aplica ao trabalho psíquico, acrescento. Se por um lado, a mais valia é algo que o objeto porta como resultado do trabalho; por outro, no trabalho analítico, poderemos localizar que o Gozo é consequência específica de um real que permite isolar a função do objeto a, consonante à supressão do sentido. Ademais, apenas na medida em que o falasser localizar o osbjet em jogo, através do desfalque do sentido, é que ele encontrará o valor de seu sinthoma e, só assim, ele poderá extrair de seu Gozo uma pequena felicidade luminosa.

O valor de gozo do sintoma varia como no mercado da fantasia, pelo viés metafórico e metonímico. Pode-se dizer que no sintoma, o valor de gozo é provisório, oscila e é susceptível às modificações da cultura. Em contrapartida, o valor natural do objeto está no horizonte de uma análise para ser desvelado. O seu valor natural é permanente e conectado ao real, que toca o impossível, uma vez que compõe o estilo do falasser, que não é ninguém menos do que o UOM que tem um corpo (LACAN, 2003. p. 563). Aliás, o estilo faz às vezes do nome pai, como pai-versão, no desfecho de uma análise, no qual, como sinthoma amarrará os três registros RSI.

À guisa de conclusão, Lacan considerou o sinthoma como sendo da ordem de um resto, que não tem mais mercado no âmbito do significante, nem valor de troca em moeda de gozo, todavia tem um valor de uso na pai-versão e que o falasser pode servir-se dele para além do pai com fins de reorientar o seu a-Gozo. Portanto, no sinthoma não há mais mercado para análise, apenas para o depoimento do passe, uma vez que a experiência de concluir uma análise não serve para mais nada, a não ser para ser narrada para que a Escola possa fazer um bom uso dela.

Referências bibliográficas:

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