Resenha: Disciplina de comentário do Seminário Silet de Jacques-Alain Miller

Resenha da Disciplina de comentário, do dia 16 de agosto, do Seminário Silet de Jacques-Alain Miller

Inspirado em Marx, mais propriamente, no capítulo III do volume o Capital, Lacan vai abalizar que o conceito de mais de gozo é homólogo e não análogo ao de mais-valia. Lacan assinala no Seminário XVI “de um outro ao Outro” que ao longo das eras, nas escavações, ao procurar em túmulos aquilo que nos atesta como um estado de civilização, encontramos o pote, junto ao defunto. Trata-se de um pote furado para que o vivo não possa se servir dele. O pote tem um valor e uso, e na passagem pelo umbral no reino dos mortos, ele adquire um valor de troca. 

Para Marx, o valor de uso de um determinado objeto é diferente de seu valor de troca. Quanto mais próximo o valor de uso e o de troca, mais próximo temos o valor real do objeto. O valor de uso é o valor libidinal investido em um determinado objeto e o valor de troca, é quanto ele vale no mercado para a venda. Contudo, pode-se dizer que desde surgiu o mercado, todo objeto com seu valor de uso, no fim tem o seu valor de troca, por mais investimento libidinal que haja nele. 

Antes do capitalismo surgir, na era do feudalismo, o mestre estava no lugar de S1 e o escravo no S2 – configurando o discurso do mestre – visto que o escravo detinha um saber-fazer com seu ofício, como o artesanato que poderia ser vendido num mercado insipiente dos burgos para garantir sua sobrevivência. A partir da instauração do capitalismo, o escravo perdeu sua condição de saber-fazer e como não tinha mais o que produzir, passou a vender a sua força de trabalho no mercado para o capitalista, de maneira que ela se tornou uma mercadoria, assim como o próprio trabalhador. O escravo transformado em trabalhador, não goza mais de sua produção, mas renuncia o seu gozo e o entrega ao capitalista em troca de um salário supostamente justo. No entanto, o trabalhador ao entregar a força de seu trabalho, ele renúncia a um gozo embutido na produção que é auferido como mais valia pelo capitalista. Então, quanto maior o valor de uso da força de trabalho do trabalhador e menor o valor de troca pago pelo capitalista, maior será a renúncia de satisfação do operário, maior será sua frustração e seu sentimento de exploração e, por consequência, maior será sua reivindicação.     

Em virtude da homologia entre a mais-valia de Marx e o mais de gozar lacaniano, assinalamos que como o inconsciente é estruturado como linguagem, o ser falante faz sintoma desde que ele adquiriu – mediante a senha do Nome do pai – a capacidade de ingressar no código da linguagem. Como a palavra mata a Coisa, de acordo com Hegel, o ser falante, renuncia o gozo na medida em que ele se inscreve no simbólico e que ele utiliza o significante na dita menção da linguagem. Sob o ângulo analítico, essa renúncia de satisfação pulsional será capturada pelo supereu como mais de gozo, e será reinvestida a serviço da constituição do sintoma. Assim, o destino do mais de gozo é servir como mola do sintoma e a verdade do sintoma, é o mais de gozo, de tal sorte que o ser falante se satisfaz de maneira paradoxal e singular, mediante o gozo que se situa no mais além do princípio do prazer. 

Na Disciplina do Comentário sobre o Seminário Silet de J.-A. Miller abordamos também o conceito de semblante. Como preambulo sobre o tema do semblante, recorremos ao mito da caverna de Platão, para dizer do eidos platônico. Ainda no que concerne a contemplação, proposta por Platão, apenas o olhar permite o acesso ao ser. Uma falha no ser, uma falta à ser, nos impede a contemplação do ser como todo, que teve o seu apogeu no estádio do espelho. Ainda no que se refere ao semblante, pode-se dizer que ele está alojado a uma categoria que se encontra com frequência na natureza e que o arco-íris é seu paradigma clássico. Além da natureza, em primeiro lugar, o semblante permeia a realidade que se encontra no eixo entre o real e o imaginário, assegurada pela significação fálica.  

Em segundo, Lacan opõe o semblante e o verdadeiro de um lado e o real de outro. Ademais ele assinala que no que concerne ao verdadeiro – cuja relação está entre o imaginário e o simbólico – é impossível dizer toda a verdade sobre o verdadeiro, de sorte que ele se inscreve na condição de S(A/), como um conjunto que não se totaliza. E por último, Lacan assinala que o semblante se localiza no vetor, cuja direção situa entre simbólico com o real. É justamente nesse vetor de base que o semblante se ampara no objeto a, na medida em que os objetos episódicos assumem sua condição plena como o seio do desmame, as fezes que se destacam, o olhar evanescente e a voz silenciosa. Portanto, pode-se deduzir que se por um lado, o ser está do lado verdadeiro, da ontologia e do semblante; por outro, o real está do lado do furo e da existência.

Essa passagem pode ser encontrada no seminário XX no qual Lacan esboça um triângulo composto pela realidade, pelo verdadeiro e pelo semblante que funciona como uma espécie de anteparo ao gozo dismórfico que como uma instância primária se invagina no corpo a partir do real. Enfim, Lacan reduz o significante ao semblante e radicaliza ao ressaltar que todo discurso é semblante. 

Na próxima Disciplina de Comentário que ocorrerá no dia 30 de agosto, no Instituto Raul Soares, abordaremos a temática dos discursos.

Até lá. 

Sérgio de Campos.