Resenha - Mishima: O adolescer de uma máscara

Resenha – Mishima: O adolescer de uma máscara

Mishima: O adolescer de uma máscara[1]

Christiano Lima (EBP/AMP)

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Fotografia em que Yukio Mishima encena a pintura “São Sebastião” de Guido Reni.

Neste trabalho, interrogamos a entrada na adolescência do escritor japonês Yukio Mishima (1925-1970) a partir de seu romance autobiográfico Confissões de uma máscara, publicado em 1949. Nascido Kimitake Hiraoka se mataria em 1970 – em uma cena teatral, inúmeras vezes ensaiada durante sua vida – como Yukio Mishima, Este último, nome-máscara sob o qual encontra a consagração como escritor e o suicídio ritual que lhe fornece sua última máscara votada ao Outro, figurado no imperador japonês.

Em Confissões, publicado quando tinha cerca de 24 anos, Mishima refere-se a seu encontro, na infância, com “imagens insólitas” de uma “perfeição magistral. Sem uma única falha. Anos depois, eu procuraria nelas a nascente dos meus atos e sentimentos, e novamente não lhes faltava nada” (p.18). A estas imagens pregnantes, confere o poder de lhe ter conferido um destino ao ponto de afirmar: “Entregaram-me o que poderia chamar de cardápio completo das inquietudes de minha vida antes que eu pudesse lê-lo” (p.18). As imagens referem-se a lembranças que se situam por volta de seus 5 anos de idade. Destacamos uma delas: a imagem do limpador de fossas, coletor de excrementos a que, a posteriori, lê como o chamado do “amor malevolente da Mãe-Terra” (p.13), já que os excrementos seriam símbolo da Terra. Podemos perguntar: que chamado seria este, senão o imperativo da Morte? Mishima experimenta um “desejo semelhante à dor pungente” que se enuncia assim: “quero ser ele” (p.19). Desta cena se destaca um traço que figura em seu erotismo fetichista sob a forma das calças justas que o coletor de excrementos utilizava, bem como um empuxo masoquista que se articula ao odor e à morte. O odor é um resto metonímico que traz para Mishima “uma sensação profunda de ‘vida trágica’” (p.14). Afirma: “Não sei bem por quê, mas para mim eram ‘trágicas’ as pessoas que levavam suas vidas inalando aquele tipo de ar” (p.14).  Aqui estão alinhados o limpador de fossa, mas também os condutores de trem e os perfuradores de bilhetes de metrô que respiravam o ar das estações, bem como os soldados que via passar diante de sua casa e que ao voltar dos treinamentos siderava o menino com seus uniformes e seu cheiro de suor.

Odor, metonímia de quê? Que trágico é este que o fazia supor que estas “coisas trágicas” se articulam a “uma exclusão ainda maior”? (p.15). Nossa hipótese é a de que o odor, a que nosso autor referia o trágico, era metonímia do quarto da avó paterna, “que cheirava a doença e velhice, sempre fechado; ao lado de sua cama de enferma foi colocado uma cama pra mim” (p.11). O fechamento de que se trata, esta “exclusão ainda maior” relaciona-se ao seu fechamento no universo da avó. Mulher que não enlaçava o desejo ao falo e, em relação a quem, Mishima encarnava o falo mortificado. Neste ponto, Mishima e André Gide têm muito em comum. No entanto, a saída de Mishima para sustentar algo da vida foi o enlaçamento do erotismo à morte. O aspecto trágico já se perfila nesta saída, pois acaba por inscrever um destino que o conduz ao suicídio ritual.

O encontro com um olhar sob uma máscara de raposa durante uma procissão, fá-lo experimentar “uma alegria próxima do medo” (p.30), o que o faz fugir. Mishima se refere a esta cena como um corte que lhe deixou uma “infância acuradamente empalhada” (p.29).

Eis que o falo vive: “Fazia mais de um ano que eu sofria o tormento de ser uma criança provida de um curioso brinquedo. Tinha treze anos de idade” (p.33). Afirma seu desnorteio diante desta vivência com a qual não podia encontrar “instruções de uso” (p.33). Surge o desejo de querer machucar o pênis. Resolve observar imparcialmente as inclinações do órgão e redescobre – como modo de tratamento da invasão deste falo sem lei – a fantasia constituída na infância que enlaça corpos masculinos seminus e cenas de morte. A fantasia é chamada para enquadrar o gozo fálico e a “instrução de uso” é exercitada na masturbação ante o quadro de Guido Reni que retrata São Sebastião flechado. Mishima vive seu primeiro orgasmo tendo por suporte a imagem do santo. Condensador da vertente fetichista (era um soldado da Guarda Pretoriana) e da face masoquista (morto belo, em martírio). Posição encenada por Mishima em fotografias, em que ele representa o santo do quadro de Guido Reni, bem como em seu sacrifício ritual em que, vestido do uniforme de seu exército particular, comete o suicídio endereçado ao imperador. Não sem antes dar instruções precisas sobre como fotografá-lo após sua morte e decapitação. A lógica da máscara fez seu destino, permitiu passar da existência do Um à construção do ser (Miller) a partir do desenho, da escrita, do teatro, do cinema, da fotografia, da arte. E da morte em que Mishima cristaliza um ser acuradamente empalhado, glorificação do falo mortificado.

 

Bibliografia:

MISHIMA, Y. Confissões de uma máscara. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
MILLER, J-A. Préface. In: HELLEBOIS, P. Lacan lecteur de Gide. Paris: Éditions Michèle, 2011.
[1] Trabalho apresentado no dia 3/9/1016 durante a XX Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise – seção Minas: Jovens.com: Corpos & linguagens. A mesa “Corpo e escrita”, coordenada por Kátia Mariás, teve como debatedora Cristina Drummond. Agradeço a ambas e aos demais participantes da mesa a possibilidade do encontro. Durante meu Seminário realizado pela EBP-MG no dia 5/9/2016 em Uberlândia (MG), retomei o trabalho apresentado, bem como as questões causadas pelos intercâmbios advindos de “Corpo e escrita da XX Jornada da EBP-MG.