Resposta à entrevista do Prof. Dr. Ivan Izquierdo

Resposta à entrevista do Prof. Dr. Ivan Izquierdo

No dia 18 de junho, último, foi publicado uma entrevista no Jornal Folha de São Paulo do renomado e premiado pesquisador e neurocientista, o Prof. Dr. Ivan Izquierdo. Por ter sido bastante comentada, resolvi ler e considerar algumas de suas ideias, apenas na medida em que ele convoca a psicanálise como campo de interlocução. Seguramente, a área de domínio do professor é a neurociência e não a psicanálise. É curioso é ele não acreditar na psicanálise, contudo, recomendar aos pacientes à terapia cognitiva, na qual acredita.

O Prof. Dr. Izquierdo relata que “é possível evitar que uma memória se expresse”, porém, não explica se é voluntariamente ou não, entretanto, assinala que “o apagamento de memórias são meras pirotecnias, coisas midiáticas e cinematográficas”. Então, como ele pode explicar as parapraxias, os pequenos lapsos de memória do nosso cotidiano, os esquecimentos dos sonhos ou as experiências da primeira infância que se apagam em virtude do recalque.

O professor relata que trabalha com a memória do medo e diz que é, justamente, “ela que nos defende de uma situação de ameaças, que garante a nossa segurança e nos mantém vivos”. No entanto, o professor desconhece que os mecanismos da fobia descritos por Freud, no qual os afetos do medo convergem para objetos inofensivos com uma intensa carga de afetos, como uma lagartixa ou uma barata, incapazes de ameaçar nossa integridade e nossa vida. Agrego a esse fato, o ataque de pânico que configura a descarga de afetos acumulados de ideias recalcadas, deflagradas por um gatilho inexpressivo como causa.

O professor diz que “a teoria de Freud envelheceu e que foi superada pela neurociência e pela capacidade de a ciência fazer testes”. Ele pergunta “onde se encontra o inconsciente”. Certamente, o Prof. Dr. Izquierdo pretende refutar Freud sem ter o lido, pois se o tivesse estudado, saberia que o inconsciente para Freud não é um propriamente um lugar anatômico no cérebro, mas um funcionamento psíquico. Lacan chega a radicalizar dizendo que o inconsciente não está no cérebro, mas na relação com o Outro, na medida em que ele está estruturado como linguagem. O professor acrescenta que “não pode acreditar em algo só porque é interessante”. Interessante, é dizer ao professor que nem tudo que existe e é crível é mensurável. Por exemplo, o que o professor diria sobre o amor e por que amamos um e não um outro, até com mais atributos e qualidades?

O professor diz que a “psicanálise é um exercício estético, não um tratamento de saúde e que não faz mal”. Encontramos aqui quase um ponto de convergência, pois não há contraindicação à psicanálise, mas a psicanálise não é uma estética, ela é uma ética, na medida em que ela intervém pela responsabilização e pela ética das consequências e não das intenções. Concordamos com o professor quando assinala que a psicanálise não é um tratamento de saúde, já que ela não tem a finalidade de assegurar o bem-estar, mas favorecer o bem dizer, visto que ela visa modificar o gozo.

Entretanto, o que seria o gozo? Grosso modo e de maneira sucinta, o gozo age à revelia do ser falante, de maneira singular e paradoxal promovendo uma espécie prazer no sofrimento, um mais além do princípio do prazer, do qual ele não consegue declinar apenas pela orientação, sugestão, aconselhamento – como supõem a terapia cognitiva – ou pela ação das modernas medicações elaboradas pela indústria farmacêutica.

Por último, certamente o professor diverge de Freud, mas em virtude de ele acreditar no poder transformador do significante, ele é lacaniano, ainda sem o saber que é. O professor assinala um ponto essencial de convergência com o pensamento de Lacan quando ele diz que “Mudar uma palavra ressignifica toda uma memória”. O professor admite que o significante interfere no constructo coletivo, ao responder uma pergunta de viés política do repórter, comentando a palavra “golpe”. O professor vai além ao dizer que “uma palavra repetida pode criar efeitos poderosos”. Por conseguinte, o professor acredita no efeito intenso do significante, do qual podemos deduzir a partir de sua entrevista que “a verdade tem estrutura de ficção”, como ressalta Jacques Lacan.

Agora, indago do por que o professor não consentir que o significante pode intrometer-se no psiquismo de determinamos sujeito ocasionando um sentido que promove gozo, já que ele admite os mesmos efeitos poderosos no coletivo?

Afinal, a experiência analítica verifica que certos significantes podem permanecer congelados, como significantes mestres, ordenadores, para um sujeito implicando um sentido que o faz sofrer. A psicanálise lida no singular com o gozo de elementos imponderáveis e imensuráveis como a angústia, a culpa, a solidão, os impasses amorosos, as vicissitudes do ódio, o desamparo, as dificuldades com os laços sociais, o masoquismo, o sentimento de abandono, de exclusão, de reprovação e de subserviência, entre outros. Ela lida com o insuportável daquele que busca no Outro um olhar de reprovação ou trata o modo de gozo de alguém que maltrata aqueles que mais ama. Enfim, a psicanálise lida com todas as condições em que a libido esteja a serviço da pulsão de morte. Se a verdade tem estrutura de ficção, pode-se dizer que a psicanálise oferece condições de possibilidades para que o significante congelado decline do sentido e “ressignifique” a hystoeria do ser falante, de tal sorte que possam ocorrer metabolizações e mutações sobre as modalidades de gozo.

A guisa de conclusão, considero bastante curioso a preocupação que os neurocientistas têm com Freud, particularmente, para dizer que Freud está “errado”, “morto”, “datado”, “ultrapassado”, que sua “teoria envelheceu”, entre outros disparates, sempre com grande destaque da mídia. Existe um velho ditado que diz: “ninguém chuta cachorro morto”. Portanto, Freud está mais vivo do que nunca e passa bem. Posso assegurar. Portanto, considero que o professor não deveria desperdiçar tanta energia se preocupando com a saúde de Freud, mas reunir forças em prol de sua pesquisa. Por fim, desejo ao professor doutor Ivan Izquierdo que alcance bastante êxito em suas pesquisas e que ele junto com os seus pares, consigam através de seu prestigiado trabalho deixar um legado em sua área para as futuras gerações, assim como Freud o fez, no âmbito da psicanálise e da cultura.

Sérgio de Campos.