Seminário "A supervisão: efeitos de formação"

Seminário “A supervisão: efeitos de formação”

 

No último dia 05 de outubro de 2017 o Seminário “Supervisão: efeitos de formação”, coordenado por Elisa Alvarenga, recebeu os psicanalistas Cristina Drummond e Frederico Feu. Abrindo o Seminário, Elisa Alvarenga anunciou que nesse dia a discussão sobre a supervisão teria como direção a psicanálise em intensão ou didática entendida como aquilo que prepara operadores para a psicanálise, conforme o que Lacan definiu no escrito “Proposição de 09 de Outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”.

Elisa nos lembrou que só há ensino em psicanálise se quem ensina aprende. Dessa forma, entende-se que o ensino só acontece se o praticante em supervisão está em posição analisante. Na supervisão trata-se de algo de fora de uma regulamentação, mas não de uma responsabilidade. Importante ressaltar que ensino e supervisão dizem respeito ao analista em formação. Nesse sentido, deve-se deixar ensinar pelo próprio inconsciente, já que o inconsciente só se autoriza da prática analítica. Desse modo, o inconsciente deve ser inventado a cada caso.

Elisa anunciou que a apresentação dos psicanalistas convidados diz respeito ao modo como cada um constrói o seu estilo na supervisão e na escola.

Frederico Feu esclareceu que seu trabalho surgiu de uma reflexão sobre o ensino e tem como título “Ensino e Contingência”. Ele traz como epígrafe de sua fala o relato de um sonho que o fez aderir a EBP em 1995. Trata-se de um sonho que evidencia a experiência de esvaziamento do Grande Outro e que tem, portanto, relação com o que ele elabora sobre o ensino na Escola. Para a discussão, Frederico inicialmente distinguiu o ensino do saber, dizendo que entre estes há uma clara disjunção. Um dos exemplos dessa disjunção é evidenciada na própria prática do analista, pois não há um ensino que verse sobre o saber do analista. O saber na escola depende da conversão do analista em analisante, já que para esse último, o que está em questão, é um saber que não se sabe. Nesse sentido, o saber não se sustentaria pela via de um ensino.

De acordo com Frederico, não há domínio ou mestria no ensino na Escola, pois ele é contingente: pode ou não acontecer, e, nessa relação com o ensino, somos todos sujeitos barrados. O saber não é monolítico, assim como nos discursos, ele muda sua função. O ensino faz a condição de um saber contingente e revela a mesma estrutura de um Witz, que é o que escapa. O Witz é a condição formal do ensino, um bem dizer contingente que se encontra agenciado pelo objeto metonímico.

Frederico prosseguiu abordando o ensino na Escola a partir de dois dispositivos: o cartel e a conversação clínica. No cartel ele localizou a produção de cada um, propiciada pela posição do mais-um. Na conversação clínica interessa o que faz o psicanalista e seu lugar em cada caso clínico. Trata-se aqui de um saber agenciado pelo caso clínico. Não há, portanto, lugar da mestria. Ao final, Frederico localizou que a transmissão analítica se faz pelo que escoa, escapa e escorre, não pelo que estanca.

Cristina Drummond deu como título à sua apresentação “A supervisão se impõe”. A partir da leitura do escrito de Lacan “Ato de Fundação” (1964), Cristina nos lembrou que a supervisão é uma experiência particular que não está separada da experiência da Escola. Assim sendo, cada analista deve fazer sua supervisão, para, de acordo com o que Lacan estabelece no texto mencionado acima, proteger o paciente e tomar a responsabilidade pela prática. Desse modo, vemos que a supervisão é imperativa, sem que ela seja imposta e é o lugar que mantém o saber em estado nascente.

Cristina lembrou que a Escola garante a formação que oferece, mas não garante o analista, já que não há teoria da formação, visto que cada sujeito é produto da experiência de sua análise.  A supervisão sofre os efeitos da transferência, pois é um trabalho de dar lugar às perguntas. Trata-se, ainda, da leitura da clínica e da construção de um estilo, lugar de interrogação do ato do analista. Se contamos com o trabalho de supervisão é para poder correr nossos próprios riscos.

Ao final das duas apresentações, Elisa Alvarenga localizou a importância da supervisão no sentido de tomar a palavra a partir do que não se sabemos.

Elisa perguntou para Frederico como se daria a presença do discurso do mestre na Escola e solicitou que ele esclarecesse as diferenças entre a douta ignorância e o não-saber histérico, a vociferação e a enunciação, a elaboração da psicanálise aplicada e a conversação clínica e finalizou suas perguntas indagando se o ensino, por conta e risco, não daria lugar a um saber contingente. Elisa perguntou a Cristina a diferença entre análise e supervisão e se o analista poderia dar lugar a uma função criacionista a partir do lugar de objeto ou então do sujeito dividido.

Frederico respondeu que toda instituição se apresenta inicialmente como discurso do mestre. Trata-se, no entanto, de fazer o movimento de não ficar aprisionado nesse discurso e nem de fazer queixa deste. Ele esclareceu que situa a douta ignorância como equivalente ao semblante de sujeito barrado. Para Frederico, a vociferação precede a enunciação. A vociferação sugere algo de um ânimo, a voz se destaca em relação ao dito, ocupando a função de causa, trata-se de um ato de tomar a palavra por uma certa pressão ao dizer. A conversação clínica no Instituto diz respeito ao caso clínico que possibilita extrair um saber do caso. Já na conversação clínica na Escola, o que está em jogo é o psicanalista e não tanto o caso. Portanto, a posição de ensino na Escola não pode ser a mesma do Instituto.

Cristina disse que a experiência de supervisão tem a ver com a Escola também e que o analista não ocuparia nem o lugar de objeto nem de sujeito dividido, pois a função criacionista vem da própria experiência analítica. Cristina lembrou que a escuta leva tempo, como disse Lacan.

No encerramento do encontro desse dia, Elisa anunciou que no próximo semestre o Seminário irá abordar a supervisão na instituição, na rede. Isso já coloca uma pergunta para investigação: nesse caso, se trata mesmo de uma supervisão ou conversação?

Por Paula Duarte Félix Marinho