Seminário de Leituras Lacanianas (Resenha)

Resenha da Disciplina do comentário do Seminário de Jacques-Alain Miller – Silet

Ficar atento às palavras! Foi com essa advertência de Sérgio de Campos que iniciamos a discussão da Lição 8, “Um Certo Eclipse da Pulsão”, do Seminário Silet de Miller. A pulsão, conceito limite entre psíquico e somático para Freud é apresentada como conceito limite entre simbólico e imaginário em Lacan. Limite não é fronteira. Talvez fosse possível detectarmos os limites de alguns conceitos entre o primeiro e o subsequente ensino de Lacan – por vezes imprecisos, borrados, onde precisamos avançar doucement – entretanto, improvável de se detectar fronteiras entre eles.

Miller ressalta que a pulsão é “desnaturada”, e, portanto, fora do campo da natureza. A opção do ser humano de viver em relação com o Outro, exprime uma exigência constante de comunicação e dessa maneira, através de sua inscrição na linguagem, instaura a supremacia de estruturas de linguagem sobre os fatores naturais. Na natureza o instinto apresenta seus traços de fixidez e rigidez estereotipados da espécie enquanto a pulsão apresenta em sua plasticidade e pluralidade de múltiplas formas de intercambio com a finalidade de encontrar a satisfação. A necessidade não é a pulsão, mas é a partir dela que a pulsão se constitui. A pulsão cavalga a necessidade e inclusive a suprime em nome do erótico. O refinamento na busca da satisfação resulta em múltiplas divisões e por isso as pulsões são sempre parciais. Para Lacan as propriedades das pulsões traduzem a apreensão do simbólico, o que resulta numa gramática. Com efeito, a pulsão corre através da cadeia de significantes encarnada, culminando no conceito de corpo pulsional, corpo falante.

No que concerne a dupla articulação da pulsão, pode-se dizer que se por um lado, as pulsões pertencem ao simbólico e dessa maneira pressupõem que os significantes penetrem até o mais íntimo do organismo, numa incorporação significante, estruturante do desejo de reconhecimento, capaz de manifestar a alienação do sujeito no desejo do Outro; por outro, elas também pertencem ao imaginário, o único a dar conta de suas satisfações, perceptíveis como modalidades de gozo. Inspirado no baquete dos desejos de Don Juan e no clássico de John Steinback, As vinhas da ira, Miller assinala que o sintoma, solução de compromisso entre o isso e a realidade, surge perturbando o reconhecimento do desejo, através de um mal-estar ao nível da fala, que revela o seu fracasso frente ao nada da existência e a percepção do engodo de uma esperança falsa.

Próximo Seminário: 14 de junho, terça, às 20h00, no Instituto Raul Soares.
Responsável pelo Seminário de Leitura: Sérgio de Campos
Resenha: Flávio Lopes.