Sobre a crise nos cartéis

Sobre a crise nos cartéis

Sobre as Crises nos Cartéis

Sergio de Campos

Ao longo dos anos, participei de diversos tipos de cartéis. Todos eles, de algum modo, passaram por algum tipo de crise. Posso afirmar que participei de cartel que se dissolveu antes de acabar; de cartel que acabou antes de se dissolver; de cartel que morreu antes de se constituir; de cartel que funcionou e que concluiu o seu trabalho, mas não foi inscrito na Escola; de cartel no qual a função de Mais-um se deslocava do instituído para se alojar em outro cartelizante; de cartel que operou e se desfez como grupo; de cartel que funcionou como seminário; de cartel que sofreu desistências no meio do percurso e, com um substituto, concluiu com êxito sua caminhada; de cartel em que um dos cartelizantes passou a fazer supervisão com o Mais-um justamente no horário do cartel, o que o inviabilizou pelo acting out; de cartel que trabalhou muito mas não conseguiu apresentar a céu aberto o produto da elaboração de cada um; de cartel que estourou seu prazo de validade e ficou com dificuldade de se desfazer; de cartel que funcionou perfeitamente e concluiu seu trabalho dentro do prazo como cartel.

Por último, ressalto que tive a oportunidade de participar do cartel do passe, e, guardando as devidas proporções, em nada esse dispositivo de aferição do passe no final difere-se dos carteis que servem como porta de entrada.

Enfim, depois de alguma experiência adquirida, embora com crises, posso declarar que aprendi muito em cada um dos carteis de que participei. Ademais, posso dizer que não há cartel sem crise de trabalho, que a crise habita o aprendizado e faz parte da estrutura do cartel. Se não se pode neutralizar as crises, a função do Mais-um é a de contornar, minimizar e superá-las, até mesmo aprender essas experiências para que o cartel siga adiante.

Lázaro Elias Rosa

Em “Cinco variações sobre a elaboração provocada”, de Jacques-Alain Miller, encontramos a ideia de que, se houvesse um discurso apropriado ao cartel, ele seria o da histérica. É verdade, a histérica produz saber e o cartel também, mas não essencial e somente isto.  Eis o matema:

     $     →       S1

     a                S2

Miller, ao tratar da produção de saber no Cartel, mexe nessa estrutura discursiva. Retira o pequeno a de seu lugar estatutário, lugar da verdade, e coloca-o no lugar de agente, de causa, produzindo uma nova estrutura, híbrida. Ao arrastar, com o ¼ de volta classicamente proposto por Lacan, o pequeno a, colocando-o no lugar de agente, faz alterar radicalmente o estatuto do objeto pequeno a, de mais-de -gozar para causa de desejo. A estrutura discursiva fica, então, assim:

Trabalho da transferência            Transferência  de trabalho

         a                  →                  $

        S1                                      S2

O que temos no Cartel são sujeitos causados trabalhando sob a égide de um discurso “híbrido”, produzido a partir do discurso da histeria, que, agora, faz entrar em marcha o discurso do analista, produzido a partir do primeiro pela lógica lacaniana do ¼ de volta no sentido dos ponteiros do relógio. Miller subverte uma e outra estruturas discursivas, fazendo-as existir acopladas e produzindo um lugar vazio,  o da Verdade. O dispositivo do cartel não funciona exatamente à moda histérica, pois, nele, os sujeitos estão causados pelo objeto pequeno a, em seu estatuto de causa de desejo – seu estatuto de mais-de-gozar ele perdeu no arrastão que o retirou de seu lugar estatutário.

Se, por um lado, no dispositivo analítico, aquele que ali está para sustentá-lo como tal só o faz enquanto capaz de deixar reinar o semblante do objeto pequeno a, por outro, no cartel, aquele que ali se encontra na função de Mais-Um só a realiza bem na medida em que consegue fazer imperar o vazio do lugar da verdade, pela via da sustentação do semblante do objeto a causa de desejo na relação dos membros do cartel com a Escola – melhor o faz, portanto, enquanto Menos-Um. Efeitos de sujeito são o que se pode esperar.

Marisa de Vitta

Lacan, ao trabalhar a noção de compreensão, apresenta o equívoco de que tentar dar sentido é “pura miragem”. Ensina que “a compreensão só é evocada como uma relação sempre no limite. Desde que dela nos aproximamos, ela é, a rigor, inapreensível”. Stella Jimenez, por sua vez, trantando o tema “Cartel e transmissão”, cita J. Attiè, que apresenta a definição de ensino como “aquilo que coloca uma questão até seu limite, até definir um impossível”.

Suportar e acolher a fratura, a falta, o furo no saber é o que pode produzir a circulação das elaborações e novas invenções. É o que vai permitir que cada um relance sua questão a uma investigação que tem em seu horizonte uma produção inacabada e que suporte uma verdade não-toda. O Mais-Um, podendo ser qualquer pessoa, é só mais um entre os outros, desde que seja nomeado pela transferência de trabalho e provoque o desejo de saber a partir de sua divisão, de seu desejo como sujeito dividido. Na posição de menos, de Menos-Um, comporta a falta.

Segundo Miller, “a estrutura que melhor corresponde ao funcionamento do cartel é a do discurso da histérica”, que abre para um saber novo, surpreendente e interrogativo. E o Mais-Um, a partir de seu sintoma, de seu sofrimento, transmite sua divisão, causando nos outros o desejo de saber.

Domenico Cosenza (tradução do texto: Wellerson Durães Alkimin)

Um tema-chave parece-me ser a relação estrutural entre o cartel e a crise, destacada por Sérgio de Campos nesses termos: “… não se é um cartel sem crise de trabalho”; “a crise… faz parte da estrutura do cartel”. Repensar o cartel a partir de seus momentos de crise parece uma direção clínica de pesquisa muito importante. Isso permite interrogar o trabalho dos cartelizantes e a função do Mais-um em torno do tema de como temos enfrentado e atravessado os momentos de crises próprios a todo cartel, como os temos reconhecido, nomeado e elaborado. Podemos, talvez, distinguir as diversas experiências de cartel, irredutível em sua singularidade, entre aqueles que conseguem nomear e atravessar a crise, sintomatizando-a de algum modo, e aqueles que não conseguem cumprir essa passagem de subjetivação do trabalho no cartel. Essa é uma questão em aberto.

Uma segunda questão ocorre-me levantada pelo texto de Jaques-Alain Miller sobre as cinco variações da elaboração provocada, e diz respeito ao lugar vazio da verdade como próprio do dispositivo do cartel. Sobre esse ponto, chama atenção, no texto de Lázaro Elias Rosa, o matema híbrido construído por Miller para escrever a estrutura de trabalho do cartel, onde o discurso da histérica vem reformulado e o pequeno a vem afastado do lugar da verdade do discurso, mantido em posição de agente que causa a divisão do sujeito e colocando o Mais-um em posição de responsável para que o lugar da verdade mantenha-se vazio. Como pensar e praticar como Mais-um essa função de sentinela do lugar vazio da verdade no discurso, tendo em conta o fato de que, como em análise, deve-se tornar possível a passagem discursiva e a circulação, evitando o encistamento em um só discurso? Outra questão que fica em aberto.

Uma terceira pergunta diz respeito à relação entre o cartel e a feminilidade, que faz com que a produção de saber que o cartel torna possível quando funciona como cartel seja um saber singular e descompletado, não-todo, próprio da lógica feminina. Como indicado na última referência de Lacan usada por Marisa de Vitta sobre o cartel, o efeito de tal dispositivo em ato no trabalho de Escola é o descolamento dos sujeitos que não tomam parte de um saber pleno e a abertura à dimensão do saber que mais toca o analista: o furo no saber, o ponto de não garantia interna. Podemos pensar o cartel como um dispositivo que permite fazer do encontro com esse buraco não só um encontro com o horror, mas ainda com um desejo de saber que se refere ao horror?

Por fim, um quarto tema que me interroga refere-se ao cartel como dimensão de encontro. Como fazer para preservar a dimensão contingente no desenvolvimento do trabalho do cartel, que necessita de seu automaton para funcionar? É uma questão que se refere à função do Mais-um, que toca a relação da dimensão desejante e libidinal na experiência do cartel.

 

  • Os fragmentos destas intervenções foram extraídos da Jornada de Cartéis de 2015, por Margareth Ferraz.