PIPOL VII - Vítimas: causas e consequências

PIPOL VII – Vítimas: causas e consequências

Vítimas: causas e consequências

Sérgio de Campos[1]

O tema da vítima é amplo e diluído, proporcionando uma confusão conceitual. Creio que o Sétimo Congresso do PIPOL que ocorrerá em Bruxelas, Bélgica, nos dias 04 e 05 de julho do corrente ano, terá a oportunidade de delimitar os diversos eixos que se abrem como um leque, em torno do conceito e propor abordagens no campo psicanalítico capazes de atenuar os efeitos do gozo da vitimização.

Pode-se dizer sensu lato que vítima é todo aquele que foi acometido por um dano que acarretou prejuízos – físico, moral, psíquico e material, colocando o sujeito numa condição de objeto de gozo masoquista.

Do ponto de vista didático, pode-se recorrer a uma divisão na qual separamos as vítimas de eventos da natureza e dos eventos do homem. Embora, denominamos de vítimas, aqueles que foram acometidos por atos decorrentes de catástrofes da natureza, como enchentes, terremotos, tsumanis; não creio que vítimas seria um nome mais adequado para designá-los, pois para que haja vítima, se torna necessário que exista um agente e uma intenção.

Um segundo tipo, ocorre quando a ação foi ocasionada pelo homem, contudo, não houve intenção direta, como um acidente automobilístico. Nesse caso, houve o agente, porém, sem intenção, e, portanto, sem culpa, mas com a responsabilidade, em virtude da infração.

Existe um terceiro tipo em que houve a intensão, mas a vítima não foi escolhida de maneira especifica pelo seu algoz. Por acaso, um turista se vê no meio de um atentado a bomba num país estrangeiro que visita ou mesmo no caso de uma vítima de assalto. Inobstante haja intenção do agente, a escolha da vítima é aleatória.

Em quarto, quando a vítima é escolhida, de maneira coletiva. Por exemplo, nos casos na qual a vítima representa uma comunidade, uma religião, como se sucedeu no holocausto aos Judeus, vítimas do nazismo. No Brasil, os negros, os pobres, os gays, as mulheres e as crianças representam segmentos sociais mais vulneráveis e, portanto, são potencialmente os mais vítimizados.

Em quinto e último, temos a vítima escolhida de maneira especifica, na medida em que ela estabelece uma parceria sintomática direta ou indireta com seu algoz. Talvez, essa modalidade seja a mais difícil de operar no campo analítico. Nesses casos, a vítima permanece fixada numa posição de gozo, visto que nutre pelo seu algoz um afeto ambivalente, de ódio e de amor. A vítima sob o domínio do mais além do princípio do prazer, eivado pela pulsão de morte, recorre novamente ao seu algoz se colocando numa posição de gozo, completando sua parceria sintomática na esfera da repetição.

Independentes das causas, os efeitos que surgem nesses corpos falantes são o trauma, o sofrimento e o gozo. Via de regra, existe uma dificuldade de dizer do acontecimento, em virtude de uma vergonha de revelar as marcas do corpo, sejam elas subjetivas ou objetivas, o abuso de pais, de cônjuges ou de parentes, o temor de represálias ou ameaças, a dependência emocional ou econômica do Outro. O silêncio, a angústia de reviver o ocorrido e o medo de reconstruir pela palavra o trauma experimentado, está sempre permeando a dificuldade de dizer. Ademais, a ignorância, a dificuldade de acessar uma ajuda, a perda de confiança nas instituições, contribuem para o gozo, o silêncio, a posição de objeto e a passividade da vítima.

Penso que é muito importante o sétimo Congresso do PIPOL se debruçar de maneira específica sobre essa temática, na medida em que a psicanálise pode oferecer recursos para o falasser sair da posição de a vítima escapando da posição passiva diante do Outro gozador, de sua disposição de gozo calcado na pulsão de morte, de objeto dejeto e silencioso, para dizer do acontecimento, esvaziando o sentido e furando o Outro consistente, se responsabilizando pela sua condição de seu corpo falante, e por fim, levando em conta o seu desejo e assumindo suas próprias escolhas.

[1] Membro da EBP e da AMP.