XIX Jornada de Cartéis da EBP-MG (Ressonâncias)

XIX Jornada de Cartéis da EBP-MG (Ressonâncias)

XIX Jornada de Cartéis da EBP MG

Simplicidade e precisão são as palavras que resumem a participação do colega Fabian Naparstek (EOL) em nossa Jornada. Foram 21 trabalhos comentados de forma clara e acessível, o que estimulou a participação dos que estão chegando e lançando-se ao trabalho de cartel e de Escola.

A mesa “Dissolvem-se cartéis” trouxe a contribuição de colegas que puderam, pela via de relatos de experiências e de uma rica análise, abrir um campo importante de investigação. Abaixo, breves fragmentos apresentados pelos componentes desta mesa.

Segundo Antonio Beneti, existe uma fenomenologia da dissolução de um cartel que é impossível de enumerar, tendendo ao infinito enquanto não toda, tal como na teoria dos conjuntos de Russel. A dissolução do grupo já está posta de início para um cartel bem sucedido, que leva a termo o seu trabalho, mas pode também acontecer antes do fim, no meio ou no início – em pouco tempo. Célula institucional de base da Escola, o cartel já tem, então, em sua estrutura de funcionamento, um operador de intervenção no nível do gozo inerente a qualquer grupo: a dissolução. Em “L’Etourdit”, Lacan apontava o real do grupo enquanto obscenidade imaginária dos grupos (OIG). Não há zero de OIG, e o Cartel, qualquer um que porte esse nome, não escapa a essa lógica.

Jorge Pimenta, por sua vez, faz um relato de experiência de dissolução de cartel, não sem efeitos de sujeito, após uma intervenção do Mais Um que ele assim interpreta: “acolher o desafio a partir dessa provocação me fez distinguir o passo de sentido para a causa analítica, diferente daquela que seguia no meu percurso de militante político, e desde essa época prossigo minha formação analítica”.

Samyra Assad relata uma experiência que chamou de dissolução memorável, na qual, como efeitos da dissolução, os quatro membros do cartel retomaram suas análises.

Finalmente, Ram Mandil aponta que o que se percebe hoje é uma plasticidade enorme em relação à fórmula 4+1 proposta por Lacan, e, diante desse panorama, é de se perguntar o que, na estrutura dos cartéis, é passível de mudança e o que deve ser uma constante, sem o qual o cartel deixaria de ser um cartel.  Assinala que devemos levar em conta as transformações na lógica dos grupos e das massas, que, hoje, trazem  aspectos novos em relação ao momento em que o cartel se instituiu como elemento de base para a formação de um analista.

Naparstek, em seguida, expõe algumas ideias a partir dos trabalhos apresentados. Segundo ele, o cartel existe para impedir uma quantidade de coisas, partindo do princípio de que qualquer dispositivo da psicanálise, desde Freud a Lacan – a Escola, o cartel, o passe, etc. – são inventados para forçar algo que não existe naturalmente.

Fabian comenta que, para Beneti, o cartel vai contra a obscenidade imaginária: o grupo está aí para gozar e o cartel freia o gozo do grupo; há um forçamento que vai contra. Às vezes, pensa-se que está trabalhando e, na verdade, o que se está fazendo é gozando no grupo. Já no caso de Jorge, diz, o cartel faz um forçamento contra a militância. No texto apresentado por Ram, o cartel iria contra a Beatitude – segundo o autor, a proposta inicial do cartel era a de ser um dispositivo através do qual Lacan visou diminuir a margem para as beatitudes ou para a formação de grandes líderes.

Quando Lacan pensava o dispositivo do cartel, diz Naparstek, estava forçando a lógica de grupos de sua época. Hoje, os grupos organizam-se de forma diferente, com uma formatação em que todos estão soltos, isolados. As várias maneiras de formação de cartel – fulgurante, virtual, etc. – buscam inventá-lo para o momento atual.

Fabian Naparstek relata sua experiência no cartel do passe na EOL, no momento em que este se dissolve. Faz, então, referência ao trabalho de Samyra, que fala de uma dissolução memorável, não somente como forçamento, mas como dissolução/solução.  A dissolução do cartel do passe na EOL apresentou-se como solução para a crise instalada naquele momento.

Em Lacan, afirma Fabian, todos os dispositivos têm um final no horizonte, salvo a Escola. O passe, entre outras coisas, é uma maneira de forçar um final de análise. O amor de transferência em uma análise tem que ter um final. O cartel também parte de um amor, e tem um período de vencimento. Naparstek cita Miller, na teoria de Turim[1], acentua que o cartel, assim como a conversação, as assembleias, os congressos e tudo na Escola, tem que apontar para o acontecimento de corpo, mesmo que nem sempre o mesmo ocorra. Um acontecimento no cartel é quando cada um encontra uma maneira singular de fazer frente ao saber, a um saber que está furado.

São, finalmente, apontadas as múltiplas maneiras de se pensar as dissoluções: dissolução/solução, dissolução/crises, dissoluções que produzem um acontecimento, etc.

Os demais 17 trabalhos foram distribuídos em três mesas ao longo do dia seguinte, com cartéis que se formaram há mais tempo e outros que acabaram de se constituir, mas já se colocaram a trabalho, apresentando sua questões iniciais e mostrando que jornadas podem acolher produtos em qualquer momento de sua elaboração.

O encerramento da Jornada foi sintomático em sua manifestação de satisfação, de trabalho concluído com êxito, tanto por parte dos participantes quanto pela equipe da Diretoria de Cartéis e intercâmbios.

Wellerson Alkmin –  Diretor de Cartéis e Intercâmbios da EBP MG

[1]  MILLER, Jacques-Alain. In: Intervención en el Congreso científico de la Scuola lacaniana di Psicoanalisi (en formación), el 21 de mayo 2000. Tema del congreso: “Las patologías de la ley. Clínica psicoanalítica de la ley y de la norma”.Extraído de El Psicoanálisis nº 1, Revista Lacaniana de Psicoanálisis, Madrid, 2000.