XX Jornada da EBP-MG: Ressonâncias (...), em cada um.

XX Jornada da EBP-MG: Ressonâncias (…), em cada um.

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XX Jornada da EBP-MG : ressonâncias (…), em cada um.

Cristiane Barreto (EBP/AMP)

Jeunesse est un mot tendre”, enuncia Lacan em uma conferência em Milão, no ano de 1972. Setembro, que enuncia a primavera, entrou ainda mais jovem em Minas no ano de 2016.As conferências do convidado internacional da Jornada da EBP-MG – “Jovens.com – Corpos e Linguagens” –  tiveram o título “Juventude é uma palavra terna”, alusão à equação freudiana de divisão entre as correntes terna e sensual, fazendo a conexão da juventude com a ternura, ao invés da eclosão do sexual.  Daniel Roy e sua estreia presencial no Brasil semeou uma transmissão precisa, de rigor e delicadeza.

whatsapp-image-2016-09-10-at-08-45-27Efervescentes participações. Marcos teóricos distribuídos em plenárias, depoimentos dos passes, recolhimento do que cada um pode colocar de seu e trazer às discussões das mesas simultâneas. Recorrer à literatura, à clínica, ao duelo de MC’s da família de rua – um jovem e não menos tradicional movimento de Belo Horizonte e suas batalhas no viaduto de Santa Tereza -, duelo de linguagem e corpos. Gente rápida com palavras, línguas e acentos. O ponto alto do encontro com a força da juventude – musicalizada, politizada, desejante -, com Flávio Renegado e “uma entrevista com valor de vida”, como definiu Paula Pimenta (EBP-AMP), concedida aos colegas jovens e entusiasmados Miguel Antunes e Maria José Salum (EBP-AMP). Valeu, Flávio Renegado! Fazer do mundo sua tribo, tomar e fazer para si um nome, elevando-o à dignidade do que constrói, são alguns dos aspectos que deixou marcas da história contada em cada um que assistia e participava ativamente, com escuta, aplausos, ritmos e silêncio. Ele cantou e encantou.

Jornada que, dentre os avanços que demarcou, talvez tenha mesmo sido terna. Um vídeo de entrada recortava cenas de filmes ao embalo de músicas mineiras, marcadamente belo horizontinas, permeadas por frases de Freud, Lacan e Miller, em uma composição potencialmente vigorosa, que emocionou. Ao final, fotos dos analistas integrantes das comissões quando jovens – alguns irreconhecíveis, outros tal como sempre foram, ou ainda mais belos, divertidos, alegres, quase nostálgicos. Imagens escolhidas por cada um, mosaico de uma seção que trabalha, não sem entusiasmo, a cada vez, para fazer durar uma Escola. Marcas do que se foi, no que vivamente permanece. Já é!

Durante encontros, congressos e jornadas, como já é de costume, inúmeros participantes manifestam-se nas redes sociais, postando comentários, citações, fotos, compartilhando, curtindo. Dessa vez, não foi diferente. Dentre as postagens, destaques eram dados por um dos colegas de outro estado, Cesar Skaf (EBP/AMP), da Delegação Paraná, cuja escrita revelava o talento para as resenhas, short cuts que não perdiam em rigor e arriscavam “colocar algo de seu”, o que ressaltou a importância do registro no Portal Minas com Lacan como forma de memória dos nossos dias de XX Jornada.

O Portal Minas com Lacan fez a Cesar um convite para que ele pudesse reunir suas postagens e enviar generosamente suas impressões e resenhas das plenárias e mesas. Apresentamos aqui “É jovem todo aquele que se analisa” – um recorte de Cesar Skaf (EBP/AMP) e seu olhar êxtimo à Seção Minas Gerais.

É jovem todo aquele que se analisa

    Cesar Skaf (EBP/AMP – Delegação Paraná)

       Foram muitas as grandes passagens da XX Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise – Minas Gerais « Jovens.com Corpos & Linguagens ». Vou apenas recolher algumas pontuações, entre tantas outras, que me tocaram mais diretamente. É difícil escolher apenas uns poucos pontos, em meio a tanto material clínico e rigor teórico, mas é impossível dizê-los todos.

            Ainda na EBP-MG, em seu depoimento sobre as vicissitudes da psicanálise no leste europeu, fui tocado pela referência a Lituraterra. Daniel Roy nos lembrou que, na volta do Japão, Lacan sobrevoou a Sibéria. O inverno havia passado, e eram os sulcos na terra que chamaram sua atenção. A água derretida da neve deixara uma miríade de pequenos lagos. Essas ilhotas de água inspiraram Lacan a pensar que não era diferente com a letra enquanto traço de gozo no corpo. Eis aí uma passagem da Rússia lacaniana, mais além da freudiana. Pontuada que fora por Dostoiévski e pelo caso freudiano mais polêmico: Serguéi Pankejeff, seu Homem dos Lobos. Já a Rússia lacaniana foi desde sempre pontuada pelos sulcos de gozo, que ensinam tanto.

             Na Jornada, me interessou a convicta afirmação de Roy de que um homem não fica obrigado a restringir ao seu pai todo o lugar simbólico de sua identificação. Na verdade, esse debate Roy iniciaria na Jornada da EBP-SP, a partir do depoimento de Passe de Luiz Fernando Carrijo, que bem demonstra essa assertiva. Aqui em Belo Horizonte, consegui ouvir a sustentação dessa leitura que Daniel Roy aponta. Ele nos disse que, quando Lacan retoma a questão do traço unário, isso já é propor a plurificação do Pai. É assim que os homens não estão aprisionados a uma identificação paterna inevitável: pode-se sempre buscar alhures traços com os quais operar as identificações.

            whatsapp-image-2016-09-10-at-08-45-28Os relatórios de cada Núcleo de Pesquisa foram primorosos, todos eles presenteados com um comentário generoso do convidado francês, cuja agudeza da leitura clínica me impressionou. Entre todos os textos dos relatórios, sistematicamente publicados no último número da Revista Curinga, recém saída do prelo, de modo que era possível tê-los em mãos para acompanhar cada discussão (o que foi excelente), destaco uma frase de fechamento do artigo do Núcleo de Psicanálise e Medicina na Jornada EBP-MG. “‘O sexual é sempre opaco’ (Lacan). Mas é possível, ao longo de uma análise, fracassar de um modo melhor (Miller)”.

            A mesa do Passe, nossa peça rara, “la petite cerise sur le gateau”, constitui a cada vez a singularidade absoluta de nossa Escola. Una no mundo, mas única na medida em que promove o dispositivo do Passe tal como Lacan o reclamou para o seu Analista da Escola, ela foi profundamente tocante para mim.

            O sensível testemunho de Gabriela Grimbaum, « Para sempre jovem », já que sempre foi uma jovem de 18 anos, mesmo quando era uma criança, permitiu fazer ressoar uma pergunta. Há transmissão simbólica de mãe para filha? Não há metáfora materna. Há apenas, talvez, algo de uma metonímia. Como se transmite algo do feminino? Diferente da jovem homossexual, que buscava mostrar ao pai como é possível amar sem ter, a ela interessava mais fazer-se amar. Fazer-se escutar. Fazer-se ver.

A rouquidão era seu mais-de-gozar. Mas a verdadeira estrutura do objeto voz é temporal, lembrou Jésus Santiago no momento de seus comentários. Quando Gabriela deixou de ser uma voz para o pai, o feminino se lhe assomou. Ali o feminino se inventou. Voz, silêncio e grito amarraram-se de uma nova forma, que já não faz mais consistir a falta do Outro.

Em seu testemunho “Da solução matemática ao regime do encontro”, Kuky Mildiner permitiu-me escutar como ela montou seu fantasma: ficar em silêncio diante do olhar do Outro. Fora criada pela mãe dentro de “uma caixinha de cristal”. Ser o falo para a mãe, posição que lhe conduz a um lugar de paralização. Fez-se uma jovem silenciosa, tímida e leitora, com preferência pela clandestinidade, modo que chamou seu arranjo sintomático: “não conte pra ninguém!”.

Seus colegas de ensino médio pensavam que viria a ser uma matemática. Essa habilidosa preferência era seu modo de excluir qualquer efeito semântico, poupando-a de qualquer efeito de enunciação. Um silêncio. Era essa sua posição diante de um segredo. Sua paixão era buscar as verdades ocultas. E agora? Como despertar do pesadelo de uma história? “Esse saber não lhe serve para nada”, disse-lhe seu analista.

Mas acontecimentos não são coisas que se passam apenas com uma história. Há os que ocupam o corpo. Estar ofegante, ter uma bronquite… desta vez, seu analista fez semblante do seu acontecimento de corpo. O ato do analista extraiu o objeto olhar e conseguiu acrescentar a ele um vazio de significação. A mulher silenciosa. É assim que, em seu testemunho, Kuky exemplifica o cúmulo do gozo oral perfeito. Ir do ponto que não se diz porque se guarda como segredo, até aquele que não se diz porque nunca será representado. Como perder seu testemunho no Colóquio da Delegação Paraná em Curitiba em 21 e 22 de outubro?

            As mesas simultâneas apresentaram todo o vigor da prática clínica da orientação lacaniana, em seu estilo sempre lógico de cernir a prática com um arcabouço que sustente a direção de cada tratamento. Segui apresentando discussões do caso V., meu paradigma atual para a sistematização de um tratamento psicanalítico possível de um sujeito com uma psicose afetiva, em sua forma mista. O mesmo caso que discuti em outro trabalho na semana anterior em São Paulo, apenas tomado em outros aspectos. Tendo apresentado em São Paulo os impasses dessa transferência e a problemática da instauração do plano da demanda, agora concernia-me a dimensão maciça de gozo da mania, que, deixada solta, desamarrada do inconsciente, caminha até a morte. “O rechaço do inconsciente em um retorno que se faz mortal” foi meu título. A coordenação cuidadosa de Josiane Soares e o habilidoso debate conduzido por Maria de Fátima Ferreira me permitiram apontar deslocamentos de gozo que esta análise vem promovendo, inclusive pela prevalência oral do objeto a. Trata-se, na manobra com o objeto oral, de inserir o Sujeito no campo do apetite. Apetite pelo saber, recuperando, então, seu inconsciente, rechaçado que estava, já que desde sempre divorciado de todo saber possível. Recolhi das palavras de Fátima uma citação de Lacan, que aponta para o fato de que, nessa clínica tão árdua, o analista “ajuda contra”. Ajuda contra o gozo mortífero que atravessa o melancólico.

Assim, chegamos ao comentário das conferências de Daniel Roy, que me conduziu a pensar um silogismo: se todo aquele que se analisa é jovem, e se “a juventude é uma palavra terna”, logo…

Nas suas duas conferências em Belo Horizonte Daniel Roy tratou de um vazio central, de uma não-relação entre a linguagem (lugar do Outro) e o corpo (lugar do gozo). Para tanto fez quatro escanções. Quatro “saber-fazer-com”, uns para o melhor, outros para o pior, quanto a esse vazio central:

  1. O terror adolescente (exemplificado pelos jovens que saem atirando nas escolas, nos episódios conhecidos como school shootings);
  2. O “clarão” do amor e do desejo, na medida que promove um laço que separa. Aqui seu paradigma foi Romeu e Julieta;
  3. As marcas cruéis no corpo, tomando as escarificações auto-infligidas neste sentido;
  4. A moda, forma de vestir o corpo que se tem, até o dândi, ou o adereço do pequeno nada.

“Assim que a juventude não é uma idade. Não é uma questão do tempo que passa. A juventude é uma qualidade do corpo falante. A juventude é uma qualidade que veste o corpo falante”, foram as palavras finais de Daniel Roy em Belo Horizonte. Pelo paradigma do testemunho de Gabriela Grinbaum, que esperava de seu pai um vestido feito de vozes, Roy dirige a pergunta a cada um de nós, analisantes: “qual é a textura da sua vestimenta?”.

Sérgio de Campos, na plenária de encerramento, propagou nossa alquimia para um elixir da juventude: façam análise. Porque é jovem todo aquele que se analisa!